E demais a mais era de uso em Roma, fazel-o na noite de São Pedro.
Aquelle que durante esta noite houvesse fixado a vista sobre a cidade eterna teria visto um d'estes espectaculos que o homem não contempla senão uma vez no decurso dos seculos.
A seus pés teria visto estender-se um grande valle cheio de egrejas e palacios, dividido em dois pelas aguas do Tibre, que parecia um Phlégéton; á esquerda um monte, o Capitolio, sobre cuja torre fluctuava ao vento a bandeira da republica; á direita o transumpto sombrio do Monte Mario, onde fluctuavam ao contrario unidas as bandeiras dos francezes e do papa, ao fundo a cupola de Miguel-Angelo, alevantando-se no meio das nuvens toda coroada de luz; emfim, como painel ao quadro, o Janiculo em toda a linha de São-Pancracio, tambem illuminada, mas pelo fusilar dos canhões e dos mosquetes.
Depois ao lado d'isto alguma coisa mais que o choque da materia: a lucta do bom e do mau principe, do Senhor e de Satanaz, d'Arimano e de Oromaze; a lucta da soberania do povo contra o direito divino, da liberdade contra o despotismo, da religião de Christo contra a religião dos papas.
Á meia noute o ceu se aclarou, o trovão e os canhões se calaram, e o silencio succedeu ao infernal mugido;—silencio durante o qual os francezes se approximavam cada vez mais das muralhas, e se apoderavam da ultima brecha feita no bastião n.o 8.
Ás duas horas da manhã, ouviram-se tres tiros de peça disparados a distancia.
As sentinellas gritaram—alarma,—os clarins tangeram.
Os bersaglieri sempre promptos sempre infatigaveis, sahiram da villa Spada e correram á porta São-Pancracio, deixando duas companhias de reserva para guardar a villa. Embebiam-se até aos joelhos na terra lodosa.
Puz-me á sua frente, com a espada desembainhada, cantando o hymno popular da Italia.
N'este momento, confesso-o, completamente desesperado do futuro, não tinha senão um desejo—o de me fazer matar.