No fim de dez minutos ajudado de Anzani, que havia deixado seu leito ao primeiro grito de alarma, tinhamos extinguido o fogo.

O pobre Anzani, com effeito estava de cama, não por estar inteiramente nú, mas porque se achava já violentamente tomado da doença de que devia morrer chegando a Genova, quero dizer de uma phtisica pulmonar.

Este homem admiravel ao qual o seu mais mortal inimigo, se acaso podia ter algum, não poderia achar um só defeito, depois de ter consagrado sua vida á causa da liberdade, queria que seus ultimos momentos fossem ainda uteis a seus companheiros de armas; todos os dias ajudavam-no a subir á ponte; quando não poude mais subir, fez-se para ahi transportar, e deitado sobre um colxão dava lições de estrategia aos legionarios, reunidos em redor d'elle.

Era um verdadeiro diccionario de sciencias o pobre Anzani; ser-me-ia tão difficil enumerar as cousas que elle sabia, como encontrar uma que não soubesse.

Em Palo, quasi a cinco milhas de Alicante, saltámos em terra para comprar uma cabra e laranjas para elle.

Foi lá que soubemos pelo vice-consul sardo parte dos successos que se passavam na Italia.

Soubemos que a constituição piemonteza tinha sido proclamada e que os cinco gloriosos de Milão se tinham passado, cousas que não podiamos saber á nossa sahida de Montevideo, isto é a 27 de março de 1848.

Disse-nos o vice-consul que vira passar navios italianos com bandeira tricolor. Não era preciso mas para me decidir a arvorar o estandarte da independencia. Arriei o pavilhão de Montevideo sob o qual navegavamos, icei immediatamente na verga do navio a bandeira sarda, improvisada com metade de um lençol, um casaco vermelho e o resto dos ornatos verdes do nosso uniforme de bordo.

Recordam-se que o nosso uniforme era a blouse vermelha adornada de verde com debruns brancos.

A 24 de junho, dia de S. João, chegámos á vista de Nice. Muitos entendiam que não deviamos desembarcar sem mais amplas informações.