O resto da comitiva compunha-se de mim e de um cãosinho que ferido n'um pé no dia do combate de Santo Antonio tinha desertado da bandeira de Buenos-Ayres com a qual tinha andado até ali para se alistar na bandeira de Garibaldi.

Chamava-se Guerillo.

O intelligente animal caminhava coxeando sempre entre as quatro pernas do cavallo de Garibaldi.

Na primeira noite alojamo-nos em casa do governador de Arguata, Caetano Rinaldi, chefe da reacção clerical que surgia atraz de nós a pouco e pouco e á medida que avançavamos.

Ficámos n'uma sala ao rez-de-chaussée ás escuras até ás dez horas da noite com pessoas que entravam, sahiam e fallavam em segredo. Notei isto ao general que me respondeu com o seu habitual socego.

—Estão detalhando o jantar.

Nada podia dizer mais verdadeiro, levantamo-nos da mesa á meia noite tendo sido tratados como se fossemos cardeaes. Quando partimos o governador deu-nos quatro arrateis de batatas para a viagem. Ás quatro horas da manhã montámos a cavallo e fomos acompanhados até ao cume da montanha pelo filho de M. Rinaldi que trazia uma bandeira tricolor de seda. Ao meio dia devorámos um cordeiro que o general mandou assar por partes n'uma fogueira de lenha, e á noite alojamo-nos n'uma estalagem isolada cheia de camponezes armados. Talvez tivessem recebido a palavra de ordem de Arguata, as physionomias eram sinistras, convidamol-os todos para beber e recusaram.

Fomos deitar-nos e dormimos com o sabre ao lado e a mão sobre o gatilho da pistola.

Garibaldi levantou-se, tinha o cotovelo esquerdo dorido e o joelho direito inchado pelo rheumatismo apanhado na America, não poude calçar a bota e foi de braço ao peito.

Depois de meia hora de marcha os cavallos não poderam continuar. Com effeito trepavamos uma montanha escarpada que o gelo da noite tornara escorregadia como um espelho.