8.
Vejo, mas não sei se vejo,
O certo he, que me cheira,
Que me vem honrar á Beira
Um Grande do pè do Tejo.
9.
Formas, cabos, e sovelas
Lavradinhas com primor
Mandareis abrir, Senhor,
Muitos folgarão de vê las.
Ali taõ somente lhe chama, e assim o dá a conhecer, "Um Grande do pé do Tejo:" e sem duvida foi elle um dos mais illustres, e accreditados Fidalgos da Corte no seu tempo. Era filho de D. Francisco da Camera Coutinho, Commendador de S. João da Castanheira na Ordem de Christo e D. Guimar de Abranches; e neto pela parte paterna de Rui Gonsalves da Camera, Capitão Donatario da Ilha de S. Miguel, I. Conde de Villa Franca, e de D. Joanna de Blaesvelt, da Casa dos Condes de Redondo, e pela mai de D. Joao de Abranches de Almada, e de sua segunda mulher D. Antonia de Souza. A tamanha nobreza uniu muitos merecimentos, adquiridos por seus serviços. Deve se a seu singular espirito, e valor a liberdade da Patria na gloriosa Acclamação d'el Rei D. João IV., sendo um daquelles illustros Fidalgos, que para ella sobre maneira concorreu, arvorando a Bandeira da Cidade, recobrando o Castello de Lisboa, e soltando alguns, que ali se achavão prezos, com outras muitas acções de lealdade, e heroico desinteresse, que serão de exemplo á posteridade. Foi Commendador de S. João da Castanheira, Senhor dos Morgados de Abranches, e Almadas, Conselheiro de Estado, Mestre de Campo General da Estremadura, e por duas vezes Governador das Armas da Provincia da Beira. E porque digamos tudo para seu completo elogio, foi casado com D. Maria de Lencastre, da Casa dos Barões, hoje Marquezes de Alvito, e della houve a D. Magdalena de Lencastre e Abranches, I. Condessa de Valladares, mulher do Conde D. Miguel Luiz de Menezes, e D. Guimar de Lencastre, que foi mai de Tristão da Cunha de Ataide, I. Conde de Povolide, e de Nuno da Cunha de Ataide, Inquisidor Geral destes Reinos, e Cardial da Santa Igreja de Roma do titulo de S. Anastacia, por quem se transmitiu o Segundo Corpo das Trovas ineditas, que agora damos. Delle se lembra o P. Nicolão da Maia na Relação daquella Acclamação que publicou em 1641. Salgad. de Araujo, Success. Militar. Liv. III., cap. 30, e seg., O Conde da Ericeira, Portug. Restaurad. P. I. nos Liv. 2. 4. 7. 8., Souz. Hist., Genealog. da Casa Real, Liv. VII. cap. I. Castro, Mapp. de Portugal, P. IV. cap. 4. e outros.
A honra de mandar levantar a Bandarra o sepulchro, que acima dizemos, e por que se lhe deve esta sua memoria, refere o mesmo Antonio de Souza de Macedo na sobredita Lusitania Liberat., e lugar apontado a pag. 736., e damos as suas mesmas palavras:—"Anno 1641. D. Alvarus de Abranches, provinciae Beirae Generalis, hujus viri humile sepulchrum in portico Ecclesiae S. Petri dicti oppidi Trancoso, elevavit honorifice nobili epitaphio; et Rex postea, capella boni reditu ejus donavit nepotem; ac merito, nam si Nabuchodonosor, et Cyrus remunerarunt Hieremiam, et Isaiam quod pro eis prophetaverint; et magnus Alexander, in gratiam Danielis prophetisantes victorias ejus, adoravit Jaddum summum Pontificem Hierosolimae; à fortiori Christianissimus Princeps Alexandro maior generosam gratificationem debebat ostendere."
AOS VERDADEIROS PORTUGUEZES DEVOTOS DO ENCUBERTO.
* * * * *
Divida he forçosa, Senhores, offerecer vos o amor da Patria esta insigne, e mysteriosa obra: porque se seu Author fôra vivo neste venturoso tempo assim o fizera em satisfação de tão dilatadas esperanças, que por mais de sessenta annos alentarão o animo daquelles, que com tanta razão, e justiça desejavão, que a Real Coroa de Portugal tornasse a illustrar a cabeça de Principe natural, e verdadeiro. Tudo merece uma firme, e longa esperança pois não ha couza que mais custe, e atormente. Assim o affirma Estacio no Livro I.
…."Spes anxia mentem
Extrahit, et longo consummit guaudia voto."