Gregorio, que d’este triumvirato sapiente é o nosso particular assumpto, criou-se com a boa estimação que inculcavam os seus haveres e as suas honras. Soube mais que seus brazileiros contemporaneos fatalmente agudos com o temperamento do clima, sendo lastima carecerem de mestres para toda a Faculdade: porque Athenas perdêra de uma vez aquella suberba, com que se reproduz em desprezo do mundo.
Passou a Coimbra, onde não teremos por novidade que aprendesse, ou que admirasse quem tanto de casa levava as potencias dispostas. Direi somente que assombrou na poesia: porque Belchior da Cunha Brochado, depois desembargador da Relação d’este Estado, escreveu a certo cavalheiro da côrte em um periodo succinto o maior elogio do seu enthusiasmo: «Anda aqui (dizia elle) um estudante brazileiro tão refinado na satyra, que com suas imagens e seus tropos parece que baila Momo ás cançonetas de Apollo.» Não devia de haver-lhe visto as valentias amorosas para enviar outra cedula aos apaixonados de João Baptista Marini pelo postilhão de Italia: mas como o maior d’esta materia se destina a perpetuo silencio pela impunidade dos termos que a modestia portugueza não permitte, triumphem os Italianos embora, que lá deve de haver necessidade d’aquillo mesmo que cá se despreza.
Doutorou-se na Faculdade de Leis, e passando á côrte a praticar os termos da judicatura com um dos melhores lettrados d’ella, lhe conciliou grandes creditos o caso seguinte:
Defendia este lettrado um pleito a certo titular, tão volumoso que o conduziam mariólas quando era preciso. Era a causa civel sôbre a possessão de uns morgados, e expirava contra aquelle cavalheiro, que somente queria empatar-lhe a execução; e nesse empenho nenhuma esperança lhe dava o seu advogado com os melhores da côrte. Mas por animar o affligido pleiteante, resolveu manda-lo ao doutor Gregorio de Mattos, dizendo que só d’aquella viveza confiava o remedio palliativo a Sua Excellencia, dado que o houvesse. Conduzido aquelle volumoso labyrintho para casa do nosso praticante, com os maiores encarecimentos lhe supplicou o fidalgo que puzesse os olhos naquelle instrumento de sua perdição, examinando-lhe os menores incidentes para embargos, cuja extensão dirigia a concertar-se com a parte vencedora por meio de algum respeito.
Era meio dia, foi-se o fidalgo, e não lhe soffrendo descanso o seu alvoroço antes de vesperas, partiu a examinar si se desvelava ou não com os autos o novo lettrado; mas achando-o na janella que palitava sôbre o jantar, grandemente affligido rompeu em queixas do pouco cuidado que lhe dava cousa de tanta importancia. «Socegue V Ex. (lhe disse o bom Gregorio), que os autos estão vistos, e nelles o remedio que desejamos muito avantajado. Neste termo de autuação temos embargos de nullidade a todo o processo, porque no anno aqui mencionado antes e depois corria um decreto de Felippe IV que condemnava nullos aquelles processos começados em papel que não tivesse o sello das armas de Castella; e como alcançou o decreto este, de que tractamos, e lhe falta o sello, segue-se que está nullo.» Com esta destreza se trocaram as fortunas dos pleiteantes, e o novato se acreditou por aguia de melhor vista.
É tradição constante que serviu na côrte o logar de Juiz do Crime; e que tambem serviu o de Orphãos se mostra de uma douta sentença sua proferida em 2 de novembro de 1671, que traz Pegas no tomo 7.ᵒ das Orden., Liv. I. tit. 87 § 24. Chegou a merecer a attenção do senhor rei d. Pedro II, então principe regente da monarchia, pelo bom e particular conceito que fez da sua grande litteratura e rectissimo proceder, e d’aqui se foi engolphando em merecimentos. Com promessa de logar na Supplicação o mandava sua alteza ao Rio de Janeiro devassar dos crimes de Salvador Corrêa de Sá e Benavides, mercê que fatalmente rejeitou. Uns dizem que por temer as violencias de tão poderoso quão resoluto réu, quando no firme proposito de observar justiça: outros, que com algum atrevimento indecoroso capitulára com o Soberano a mercê antecipada do serviço, dando a entender que se fiava pouco em promessas ainda que Reaes.
Isto é o que se conta, e sempre o ouvi dizer a pessoas de melhor noticia; mas como se faz merecedor do engano (diz Camões) quem acredita mais o que lhe dizem, que o que vê, affirmarei que o doutor Gregorio de Mattos cahiu da graça do Soberano á persuasão de alguem prejudicado em suas satyras, sem que atrevida ou temerosamente recusasse mercês. Thomaz Pinto Brandão, em um resumo que faz da sua mesma vida, diz que viera ao Brazil na companhia d’elle, que se retirava descontente de lhe negarem aquillo mesmo com que rogavam a outros, e isto por ser poeta e jurista famoso:
Procurei ir-me chegando
A um bacharel mazombo,
Que estava para a Bahia