Este é o mais abreviado resumo que posso dar da vida do meu suspirado, quão dilectissimo poeta lyrico; e oxalá podéra eu publicar os prodigiosos fundamentos do meu amor, derramando entre as gentes o manancial thesouro de suas graças! Singular foi a estrella que dominou em seu engenho; porque a toda a circumferencia das luzes apolineas brilhou com egualdade senhoril; e não menos prodigioso aquelle não sei que de sua guarda, porque offendendo ás claras muitas pessoas, de quem o menor movimento seria sem duvida uma tyranna morte, sempre se atreveu, e nunca de seu motu proprio cautelou perigos; morrendo intacto de tão prolongados mezes.

Muitos eram os feridos do seu ferro que consultaram o remedio no mesmo instrumento da chaga, beijando a Achilles a lança que os traspassára. Raro testimunho d’esta fatalidade foi a resposta que deu a um queixoso certo governador severamente resoluto: «Não faça V. Mᶜᵉ. caso (disse), porque isso tambem passa por mim, sem que por mim passe a minima tenção de o castigar.»

Testimunho d’esta fatalidade são as duas quartas de um soneto, que se fez em sua morte; o qual não escrevo por inteiro em razão de que si os seus principios professam a verdade pura, os fins todavia contém temeraria petulancia:

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,

Que sabendo tirar por varios modos

A fama, a honra, o credito de todos,

D’esses mesmos te viste applaudido.

Entendo que outro tal não tem nascido

Entre os Romanos, Gregos, Persas, Godos,

Que comtigo mereça ter apodos