Por vida do meu Gonçalo,

Custodia formosa e linda, &.

Madrasta do Gonçalinho,

Que é lindo enteado a fé, &.

Sim, por vida de Gonçalo, &.

Mas por vida de Gonçalo, &.

D’este moço, que com sua mãe ficou em summa pobreza e desamparo, correm noticias muito geraes que totalmente degenerára d’aquella massa scientifica de seus estupendos progenitores. Bem pudera eu duvida-lo em uma terra, onde sempre se hão de tomar os echos da fama pelo contrario; pois nunca vi nella abonar um sujeito que não mereça ser desterrado por máu, nem vituperar outro que ao contrario desmereça elogios de bom.

Mas para cumprir com os relativos d’esta historia consultei dous sujeitos que se criaram com Gonçalo de Mattos, ambos de instincto capaz para uma informação, e entre elles achei a contradicção, que póde servir de exemplo a quem se informa: um affirma com juramento que era poeta natural, o outro jurando nega que tal fosse, dizendo que elle nem o Padre Nosso era capaz de repetir. A este seguem muitos, e nenhum áquelle: mas o primeiro chamado Christovão Rodrigues diz que em sua adolescencia lhe dera o seguinte mote:

Com que, porque, para que.

Defendia-se o Gonçalo temeroso de uma maldição condicional de sua mãe, em respeito da qual não queria pegar na penna para fazer versos, posto que no animo lhe pulsavam as Musas (tal foi o escarmento que deixaram ellas naquelles cadaveres da paciencia lastimosa). Mas como a condição do preceito tinha sua clausula, em que fundar-se uma heresia graciosa, respondeu importunado: «Pegae vós na penna, porque a maldição de minha mãe parece que não me prohibe fazer versos, mas sim pegar na penna para elles.»