—Apenas o sol doire com os seus raios o extremo do mastro real do meu navio, a quilha d'este rasgará as ondas orgulhosas do Adriatico em direcção á ilha, respondeu Othello. Mas antes, Senhoria, ordena-me o coração e a lealdade responder ás accusações d'este velho e deixar terminado este assumpto. Peço-vos que não me negueis o favor de me ouvirdes e de fallar agora mesmo na causa que vou submetter ao vosso recto juizo, Senhoria; porque, apesar de tudo, poderia morrer na nova empreza que vou emprehender e por cousa nenhuma do mundo quereria que pezasse sobre o meu nome a affronta que Brabancio acaba de lançar sobre elle com as suas palavras, ante o Conselho...
—Falla pois, Othello—disse o Doge, com deferencia;—mas, como ha pouco disseste, procura ser breve, o mais breve que te seja possivel, porque não ignoras que o tempo urge e os momentos perdidos são preciosos.
—A brevidade convem a todos—disse o africano;—porém mais a mim do que a ninguem, porque d'ella depende o exito do meu plano de batalha e da sorte da minha existencia. Não receieis pois, Senhoria, e escutem, ouçam-me todos, com os corações de homens e toda a consciencia de magistrados, porque é a minha honra, a minha vida e a minha felicidade que jogo n'este momento.
Calou-se o mouro e, durante alguns instantes, pareceu como abstrahido em meditação dolorosa; depois, erguendo a altiva e bronzeada fronte com o gesto leonino que lhe era peculiar, olhou cara a cara para o Doge e para os individuos do Conselho com olhos nos quaes se reflectia toda a lealdade do seu grande caracter, e começou em voz grave e pausada, que condizia perfeitamente com a soberba majestade da attitude:
Barbancio accusou-me ante vós, Senhoria, de que esta noute lhe raptei a filha para deshonral-a e deshonral-o a elle e a toda a nobreza da Republica.
—E assim é; atreve-te a negál-o! gritou fóra de si o velho senador, a quem a recordação do rapto da filha despertara toda a colera que, durante momentos, havia parecido abandonál-o.
—Nego-o, porque não é verdade—respondeu friamente Othello—Desdemona deixou esta noute a casa de seu pae para seguir-me, para acompanhar seu esposo, porque meia hora depois de ter pisado o tapete da minha gondola, enlaçava-se com o meu o seu destino ante os altares.
—É mentira, uma infame mentira!—rugiu o velho—A minha filha não póde ser a esposa de um cão hereje como tu!
—Tanto póde, que o é—affirmou categoricamente o mouro, sem perder nem por um momento o sangue frio.—Além d'isso, não casou com um hereje, pois creio no Deus dos christãos, porque é o Deus da mulher que adoro.
—Então é porque a enlouqueceste, porque a embruxaste com feiticerias e artes magicas!—exclamou Brabancio no paroxismo da ira. D'outro modo, é admissivel que uma donzella tão pura, tão formosa e delicada como Desdemona, se enamorasse de um horrivel negro como tu?