—A Chypre, que está ameaçada pelos turcos, e onde faz falta a presença do general mais habil e valente que tem o estado, disse o Doge.
—Pois bem, respondeu a joven n'um tom de resolução inquebrantavel—irei tambem com elle a Chypre. Não diz o Apostolo que a mulher deve seguir o marido? Pois eu opponho-me com toda a minha alma a separar-me d'aquelle que a Providencia collocou no meu caminho.
—Mas, e os perigos a que te vaes expor, indo na sua companhia? observou o Doge.
—Não me importam. Seguil-o-hia, embora soubesse que caminhava para a morte, respondeu a corajosa joven.
O Doge consultou Othello com o olhar, e este sentindo-se tacitamente apoiado pela poderosa Senhoria, atreveu-se a dizer:
—Realmente, não vejo inconveniente em que minha esposa me siga, visto não receiar os perigos que vamos correr juntos. Por outro lado, a mulher de um guerreiro deve ser animosa, e além d'isto a sua presença, longe de diminuir ou quebrantar o meu valor ou os meus talentos militares, multipolical-os-ha até o infinito. Por consequencia, se sua Senhoria e o sabio e prudente Conselho não se oppõem a tal resolução, levarei minha esposa comigo á ilha de Chypre, para onde partirei d'aqui a uma hora. Mas, proseguiu, olhando para Desdemona, para poupar os riscos da viagem, peço ao Conselho que me auctorize a levar comigo todos os officiaes que me são dedicados e que estão acostumados a combater sob as minhas ordens. De este modo, se morrer em qualquer recontro com os turcos durante a expedição, sei que o meu tenente Cassio e o meu alferes Iago, que são meus irmãos de armas, velarão por minha mulher, como faria sua propria mãe.
Assim ficou combinado e, passada uma hora, Othello e Desdemona, com os officiaes favoritos do general, embarcaram em direcção á ilha de Chypre.
O que todos ignoravam a bordo, exceptuando o alferes Iago, que nem o confessou á propria mulher, Emilia, aia de Desdemona, era que, no mesmo navio que albergava os dois felizes esposos, ia tambem o nobre Rodrigo, sobrinho de Brabancio e primo de Desdemona, da qual estava loucamente apaixonado, e a cuja posse não renunciava, apezar de Iago lhe haver dado a noticia de que n'aquella madrugada se realisára o matrimonio da joven.
Mas o alferes de Othello, dotado do maior cynismo, constando que o seu nobre amigo se desesperava, renunciando para sempre ao objecto da sua paixão ao comtemplal-o nos braços de outro, riu-se d'elle e quasi o obrigou a que o acompanhasse a Chypre, disfarçado de marinheiro, promettendo-lhe que, se, como havia dito antes, não lhe desobedecesse em coisa alguma, e muito menos lhe negasse o ouro que corrompe todas as consciencias, arranjaria tudo de fórma a n'um prazo curto, que nunca excederia um mez, a candida e innocente prima cahiria, louca de amor, nos braços do apaixonado primo.
Mas, o que pretendia o mizeravel com tudo isto, era, sómente, enriquecer á custa das joias e do dinheiro de que havia obrigado a prover o ingenuo Rodrigo, e ter este como uma corda mais no arco, para quando chegasse o momento de disparar a envenenada flecha destinada a despedaçar o coração do homem generoso que o acolhera sob a sua protecção e lhe déra a sua amizade e o seu carinho, bem longe de suppôr que abrigava no seio a vibora, que depois havia de causar-lhe a morte com a mordedura venenosa.