Continuou a ceia, animada pela pittoresca conversação do alferes e pela alegria natural e espontanea de Montano, e, passado algum tempo, o primeiro voltou a erguer-se, encheu novamente os trez copos, e disse levantando o seu:
—Brindemos pela gloria e prosperidade de Veneza e pelo triumpho das suas armas sobre todos os inimigos!
Montano e elle emborcaram os copos d'um só trago; mas o tenente, sem despejar o seu, disse em tom resoluto:
—D'esta vez não beberei, já lhes fiz a vontade, apezar de contrariado, e por isso espero que não insistam mais.
—Prevês o que se dirá, replicou Iago, sem dar importancia ás palavras do amigo, quando se souber, e saber-se-ha comcerteza, porque as paredes teem ouvidos, que não quizeste brindar pela gloria de Veneza, depois de ter brindado pela felicidade do homem que te protege? Pois toda a gente affirmará, continuou, sem parecer notar o olhar colérico que lhe dirigia o companheiro, que não passas d'um adulador egoista, que pretende afagar os poderosos, para medrar á sombra d'elles, e que, como florentino afinal, te importa pouco que a Republica triumphe ou seja derrotada pelos seus inimigos.
Cassio cravou no miseravel um olhar ameaçador e apertando convulsivamente os queixos um contra o outro, como para conter as palavras que estavam prestes a escapar-lhe dos labios, pegou no copo e bebeu nervosamente até á ultima gôtta.
Outra vez proseguiu a scena, e foi então Montano quem, excitado já pelas libações, ainda que bastante senhor de si, encheu os tres copos e disse apresentando o seu:
—Pela total ruina do poderio turco, e para que o leão de S. Marcos destroce, definitivamente, nas suas garras, a orgulhosa meia lua!
O tenente Cassio, sem que em tal momento tivesse ninguem que o provocasse, foi o primeiro a tocar no copo do nobre anfitrião.
Mas, apenas bebeu o vinho que continha, soltou uma blasphemia, e cravando no alferes os olhos esgazeados, cuspiu-lhe á cara este insulto: