—Porque não o conheces, volveu perfidamente Iago. Quanto a mim, estou habituado a estas scenas, e, como sempre que bebe, me insulta, ouço os ultrages como quem escuta a chuva. Isto te foi dado observar ha pouco.
—Sem duvida, disse Montano n'um tom affectuoso. Bem pode dizer esse bebedo que tem em ti um verdadeiro amigo.
—Sim, estimo-o, respondeu Iago, e prefiro, por isso, que desabafe comigo, a que o faça com outro qualquer; pois o insulto poderia acarretar-lhe desgosto sério, como já por vezes tem estado a ponto de succeder-lhe, quando não me encontro junto d'elle.
—Mas, pôe-se de tal modo quando bebe? Perguntou Montano.
—É verdadeiramente insupportavel; para qualquer outro que não tenha a minha paciencia, torna-se aggressivo e turbulento, e não ha meio de reprimir-lhe as insolencias senão castigando-o severamente.
—N'esse caso, observou Montano em tom de pezar, repito que fizemos mal em o deixar sair d'aqui... Quem sabe, se...
Não poude terminar a phrase, porque n'aquelle momento faziam-se ouvir, não longe d'ambos, os gritos espantosos de um homen que pedia auxilio desesperadamente, e antes que tivessem tempo de se refazerem da surpreza, entrou na sala, com flecha, um individuo vestido de marinheiro, que vinha seguido de perto pelo tenente Cassio. Este proferia a tropel blasphemias e maldições agitando a espada que empunhava.
—Hei de espetar-te como um frango, meu grande tratante! gritou o tenente ao entrar em casa, apóz o marinheiro, o qual, como já terão adivinhado não era outro senão Rodrigo, que havia seguido fielmente as instrucções dadas por Iago para a execução do plano.
—Socorro, socorro, que me mata! gritou Rodrigo com voz que reboou por todo o edificio, despertando os homens de armas.
—Alto ahi, amigo Cassio! exclamou Montano severamente. O que fazes não é proprio de cavalleiro!