—Quero dizer—respondeu este dando-se ares de protecção carinhosa para com o antigo camarada,—que conheces mal os homens e que és demasiado leviano para te entregar á desesperação.
—Que conheço mal os homens?—exclamou Cassio corando, pois que adivinhava a quem a phrase intencional do amigo visava.
—Sim, conhecel-os mal—insistiu Iago—e desconfiaste de mim. Vamos, confessa—accrescentou batendo affectuosas palmadas no hombro do amigo.
—Juro-te...—replicou Cassio.
—Não jures—interrompeu-o o alferes—porque mentirias, e isso é indigno de ti. Mas para vingar-me como devo da maneira como pensaste a meu respeito, vou castigar-te dizendo que, á força de atormentar o cerebro procurando a maneira de remediar efficazmente todo o occorrido, estou seguro de ter dado com um meio que, não só te devolverá o posto, mas que te ganhará tambem de novo a amisade e a estima de Othello.
—Como! exclamou Cassio, admirado, estreitando agradecido a mão do alferes.
—Muito simplesmente—respondeu este—por meio de Desdemona.
—De Desdemona? Não te comprehendo—disse Cassio.
—Pois a coisa não pode ser mais clara—replicou Iago com convicção absoluta.—Vejamos: não foste tu, durante muito tempo, o unico confidente dos amores de Othello e da bella filha de Brabancio?
—Certamente—respondeu Cassio, mas ignoro como podeste saber isso, que é segredo para toda a gente.