—A julgar pela discripção que acabas de fazer de Othelo, não parece senão que estás tão enamorado d'elle como minha propria prima Desdemona, ponderou sarcasticamente Rodrigo.
—Porquê? replicou Yago com maior sarcasmo. Porque o conheço e conservo o senso commum necessario para poder apreciar no seu justo valor as qualidades d'esse homem e dar conta exacta da influencia que taes qualidades podem exercer no coração d'uma joven? Que disparate suppôr que eu amo Othello! Pelo contrario, odeio-o com todas as forças da minha alma e de boa vontade inventaria qualquer novo tormento para vel-o morrer na mais horrorosa das agonias. Preferiu-me a esse florentino, Miguel Cassio, a quem nomeou seu tenente, deixando que eu, com o estupido pretexto de que ignoro a estrategia militar, continue sempre alferes, o que é peor ainda. Fallando francamente, não tenho base firme para fundar as minhas suspeitas, mas chegou-me a parecer que o maldito mouro e minha mulher, Emilia, dormiram mais de uma vez no mesmo leito que paguei para celebrar as bodas. Só esta suspeita faz com que sinta todos os martyrios do inferno nas entranhas e deseje vingar-me de Othello, de maneira que cause horror ao proprio Deus das vinganças. Por isso te procurei esta noute, accrescentou o alferes fixando em Rodrigo os olhos chammejantes. Estás apaixonado por tua prima Desdemona, e o homem que eu odeio roubou-ta; pois bem, se me promettes fazer tudo quanto te disser cegamente e sem discutir as minhas indicações, garanto-te que Othello pagará o seu crime e Desdemona acabará por arrojar-se nos teus braços sincera e profundamente arrependida do que fez.
—Devéras? Não me enganas? esclamou Rodrigo louco de alegria.
Juro-o! respondeu Yago com um gesto de convicção; se me obedeceres em tudo, antes de um mez Desdemona será tua.
—Que tenho a fazer para tanto? perguntou Rodrigo disposto aos maiores sacrificios para conseguir o amôr da prima.
—Primeiro, disse Yago, que nunca perdia a presença de espirito, ganhar o tempo que temos perdido discutindo aqui como dois tontos, ou como dois homens despreoccupados, que não teem nada a fazer, quando cada minuto que se perde é um seculo, difficil de recuperar.
E no relogio de S. Marcos soaram n'esse momento duas horas.
—Já duas horas! esclamou Yago, arrastando comsigo o amigo, emquanto fallava. É bastante tarde e ainda precisamos de correr muito!
—Onde me conduzes? perguntou Rodrigo desconfiado, mas seguindo docilmente o alferes.
—Ao palacio de teu tio, para communicar ao pobre velho a sua deshonra e a fuga da filha, se é que elle ainda não deu por tal, como é provavel, pois deve dormir a estas horas, ajuntou Yago.