Sem embargo, a mulher do traidor alferes nunca previra até onde chegaria a selvagem paixão do africano, e ao ver nas terriveis mãos de Othello o corpo inanimado da querida ama, julgou que elle a tinha matado e, começou a gritar desesperadamente, rompendo em violentos soluços e increpando o ciumento marido com os mais horriveis improperios:

Othello, cujos olhos se injectaram de sangue, e cujo bronzeado rosto instantaneamente se pôz quasi branco, sentiu desejos irresistiveis de arrojar-se sobre Emilia e estrangulal-a; mas, dominando os impulsos ferinos com supremo esforço da vontade, conseguiu vencer-se e, abandonando o desmaiado e precioso corpo que ainda conservava entre as mãos, lançou á criada um olhar de ameaça feroz e sahiu precipitadamente do aposento, como se temesse não ser senhor de si, caso n'elle permanecesse mais algum tempo.

Emilia ficou, pois, só com Desdemona, a qual levantou do chão com o delicado esmero de mãe, e, depois de a deitar no leito, prodigalisou-lhe todos os cuidados que considerou necessarios para a fazer recuperar os sentidos.

Quando a infeliz voltou a si do deliquio, rompeu em amargo e copioso pranto, o que lhe desafogou um tanto o angustiado coração. Depois, em vez de se mostrar indignada contra o implacavel esposo, começou a desculpal-o aos olhos de Emilia, que continuava dirigindo-lhe os insultos mais violentos.

—Meu pobre Othello—terminou dizendo a pura e nobre Desdemona.

«Soffre mais ainda do que eu, porque me ama apaixonadamente, e julga-me culpada, devido a um erro fatal, que é preciso aclarar a todo o custo.

Ditas estas palavras, que lhe punham em relevo toda a angelical formosura da alma, fechou os olhos e, o seu delicado organismo, rendido por fim, por tantas e tão violentas emoções, cahiu n'um profundo somno, que era o melhor lenitivo que podia achar n'esse instante a desventurada para acalmar a dôr que lhe atormentava a alma...

Entretanto Othello dirigia-se para os seus aposentos particulares, com o proposito de encerrar-se n'elle e poder desafogar melhor, no isolamento a raiva e os ciumes que lhe mordiam cruelmente o coração.

Mas, apenas penetrou no salão que lhe servia de gabinete, encontrou-se, cheio de admiração, na presença completamente inesperada em tão dolorosos momentos de quatro cavalleiros venezianos, que acabavam de chegar á ilha de Chypre e o estavam esperando.

De novo conseguiu o mouro dominar as violentas agitações e as crueis torturas da alma, e, depois de trocados os primeiros cumprimentos, perguntou ao mais velho dos quarto, e que parecia ser o chefe, o motivo de tão inesperada como grata visita.