—Mentira! gritou de novo Emilia. Senhores, não acrediteis! A infeliz Desdemona era tão pura e innocente como os anjos do céu, e levava a incomparavel bondade de sua alma até ao extremo de amar com todas as energias do seu coração o seu proprio verdugo!

—Tu é que estás mentindo, infame impostora! rugiu Othello, que tremeu até ao mais intimo d'alma ao entrever a possibilidade da innocencia da esposa pela maneira convicta com que fallára a dama. E accrescentou tirando do bolso o lenço de seda, que guardava como prova accusadora: Atrever-te-has a negar que conheces esta prova do criminoso adulterio? Este lenço deu-o minha esposa ao amante, a esse infame Cassio, que o proprio inferno repelliu, pois que ainda o vejo aqui com vida!

Ao ver o lenço, Emilia ficou convertida em estatua; pôz-se livida como um cadaver, as pupilas pareceram querer-lhe saltar das orbitas, e exclamou horrorisada:

—O lenço de seda! O lenço que roubei a Desdemona!

—Que roubaste?—exclamou Othello enlouquecido e julgando ter ouvido mal.—É mentira! Foi minha esposa que o deu a Cassio como prenda dos seus criminosos amores!

—Proximo a entregar a alma a Deus interveio com debil e apagada voz o antigo official de Othello—Juro pela minha salvação que nunca vi semelhante lenço nas minhas mãos e que Desdemona te era tão fiel como póde ser a mulher mais pura do mundo!

«Juro tambem, continuou fallando com grande custo,—que morro victima de um erro teu, general, e assassinado por ordem d'esse infame, que não se atrevendo a atacar-me, enviou um instrumento seu, o qual logrou enganar por meio de outra calumnia, e que, depois de ferir-me, acaba de morrer ás minhas mãos, confessando tudo! Juro, por ultimo, accrescentou Cassio, cada vez com voz mais debil,—que sempre te amei como a um pae, como ao morrer te quero ainda, e que Desdemona, tão innocente e pura como um anjo, não foi outra cousa para mim do que foi para toda a gente; um coração cheio de bondade e de doçura! Juro-o por tudo quanto existe de sagrado!...

E o antigo tenente de Othello cahiu sem sentidos nos braços dos soldados que o amparavam.

—E eu juro—exclamou por sua vez Emilia, encarando Othello, que permanecia atonito, como se tivesse recebido um profundo golpe; juro que esse homem disse a verdade, que minha ama era pura como um raio de sol e innocente como uma criança; que Cassio nunca teve em suas mãos esse lenço, e que fui eu que o roubei a Desdemona, obrigada a tal acto por meu marido e fazendo-o jurar que com elle não prejudicaria ninguem! Juro-o pela memoria de meus paes!

Succedeu então uma cousa verdadeiramente horrivel.