Com effeito era tarde. Dei as boas-noites aos dois cavalheiros; e no meu beliche, até de madrugada, sonhei com o antigo D. José da Silveira, com El-Rei Salomão, e com montões de pedras que reluziam no fundo d’uma caverna.
CAPITULO III
O HOMEM CHAMADO UMBOPA
Durante o resto da jornada pensei constantemente na proposta do barão. Mas nem eu nem elle voltamos a fallar de Neville ou da travessia para as minas. Na tolda e no beliche as nossas conversas rolavam todas sobre caça, sobre aventuras de caça na Africa. Os dois, homens de grande sport, não se fartavam de escutar. E eu, velho palrador, cheio de memorias e já anecdotico, não me fartava de contar.
Finalmente, n’uma esplendida tarde de janeiro (que é aqui o mez mais quente do anno) avistámos a costa de Natal--com a esperança de dobrar a ponta de Durban ao sol-posto. Toda esta costa é adoravel, com as suas longas dunas avermelhadas, os ricos tapetes de verdura clara, as alegres aringas dos Cafres espalhadas aqui e além, e a orla espumosa e alva do mar que rebenta nas rochas. Mas, justamente perto de Durban, a região toma uma incomparavel riqueza de tons. Nas ravinas, cavadas pelas enxurradas de seculos, faiscam riachos innumeraveis: o verde do matto é mais intenso: os outros verdes de jardins entremeiam-se com as plantações d’assucar: e a espaços uma casa muito branca, sorrindo para a azul placidez do mar, põe uma linda nota, humana e domestica, na vastidão da paizagem.
Como disse, contavamos dobrar, antes do sol-posto, a ponta de Durban. Mas quando deitámos ancora já era crepusculo cerrado, tarde de mais para entrar a barra. Tinhamos ainda essa noite a bordo: e descemos ao salão, para um jantar quieto em aguas serenas, depois de vêr o salva-vidas remar para terra com as malas do correio.
Quando voltámos á tolda, a lua ia alta, e tão brilhante sobre mar e praia, que quasi offuscava os lampejos largos do pharol. De terra vinham, através do ar calmo, aquelles picantes e dôces aromas de especiarias, que, não sei por quê, me fazem sempre lembrar hymnos de egreja e missionarios. O bairro de Berea parecia em festa, com todas as varandas alumiadas. N’um grande brigue, ancorado ao lado, os marinheiros estavam cantando, ao som do banjo. Era uma noite d’encanto, como só as ha n’este abençoado sul d’Africa, que lançava sobre a alma uma infinita paz, infinita e suave como a luz que derramava a lua cheia. Até o bull-dog d’um passageiro irlandez, que não cessára de rosnar ferozmente durante toda a jornada, cedera emfim ás pacificadoras influencias do sul, e dormia, estirado no convés, com um ar de tregoa e de perdão aos homens.
O barão, o capitão John e eu, estavamos sentados junto á roda do leme, olhando e fumando em silencio.
--Então, snr. Quartelmar? Exclamou de repente o barão, sorrindo. Aqui estamos em Durban... Pensou nas nossas propostas?
--Vamos ou não vamos de companhia á busca do snr. Neville? Echoou do lado o amigo John.