Agora que este livro está impresso, e em vesperas de correr o mundo largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para elle ser aceitavel, muito lhe falta como Estylo e como Historia.
Emquanto á Historia, realmente, não pretendi, nem tentei, metter n’estas paginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem á terra dos Kakuanas. Ha todavia n’esse estranho povo coisas que mereciam exame detalhado e lento:--a sua Fauna, a sua Flora, os seus costumes, o seu dialecto (tão aparentado com a lingua dos Zulús), o magnifico systema da sua organisação militar, a sua arte subtil em trabalhar os metaes... Que interessante estudo se faria, além d’isso, com as lendas que ouvi e colleccionei ácerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha de Lú! Que curiosa, tambem, a tradição que entre elles se tem perpetuado sobre os Silenciosos, os dois colossos que jazem á entrada das cavernas de Salomão! No emtanto pareceu-me (e assim pensaram o barão Curtis e o capitão John) que seria mais efficaz contar a historia a direito, e sêccamente, deixando todas estas particularidades sobre a região e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, n’um tomo especial, com minudencia e largueza.
Resta-me pois implorar benevolencia para a minha tosca maneira de escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a penna--e sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios litterarios. Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: não sei, nem possuo auctoridade para o decidir: mas, na minha barbara idéa, as coisas simples são as mais impressionadoras--e mais facilmente se deve acreditar e estimar o livro, que venha escripto com séria e honesta singeleza. Lança aguda não precisa brilho, diz um proverbio dos Kakuanas: e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a apresentar a minha historia, núa, lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados galões da Eloquencia.
Allão Quartelmar.
AS MINAS DE SALOMÃO
CAPITULO I
ENCONTRO COM OS MEUS CAMARADAS
É bem estranho que n’esta minha idade, aos cincoenta e seis annos feitos, esteja eu aqui, de penna na mão, preparando-me a redigir uma historia!
Nunca imaginei que tão prodigiosa occorrencia se podesse dar na minha vida--vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem duvida, por a ter começado tão cedo! Com effeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escóla, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colonia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, mettido em negocios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos--e n’essa dura profissão, que é a minha, a caça ao elephante e ao marfim. Pois, com toda esta diligencia, só ultimamente, ha oito mezes, arredondei o meu sacco. É um bom sacco. É um sacco graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um tremendo sacco! E apesar d’isso, juro, que para o sentir assim, redondo e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes d’este terrivel anno que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pelle intacta e com o sacco cheio. Mas eu no fundo sou um timido, detesto violencias, e ando farto, refarto de aventuras!