Tinhamos pois dois serviçaes. O terceiro parecia impossivel descortinar. Tentei, tentei--até que resolvemos partir sem elle, esperando encontrar, antes de mettermos para o deserto, algum homem aproveitavel entre Inyati e Zukanga. Na vespera porém da nossa partida estavamos jantando, quando Khiva, o rapaz zulú, veio annunciar que um homem se viera sentar no meu portal, á minha espera. Mandei entrar. Appareceu um rapagão muito esbelto, robusto, magnifico, apparentando trinta annos, e claro de mais para Zulú. Floreou no ar o cajado á maneira de saudação, encruzou-se sobre o soalho, a um canto, e ficou calado com singular dignidade. Não lhe dei logo attenção. Assim se deve proceder com os Zulús. Se o branco lhes falla com promptidão e agrado o Zulú conclue immediatamente que está tratando com pessoa de pouco commando. Observei no emtanto que este homem era um Keslha, um homem-de-annel--isto é, que trazia na cabeça aquella especie de rodilha, feita de gomma, e toda lustrosa de sebo, que elles entremeiam na grenha e usam, quando chegam a uma idade de respeito ou attingem nas suas aringas uma posição superior. Tambem me pareceu reconhecer aquella cara--realmente bella.

--Bem, disse por fim, como te chamas?

--Umbopa, respondeu o homem n’uma voz lenta e grave.

--Estou a pensar que já te vi algures.

--Já, Makumazan!

Makumazan é o meu nome cafre--e significa aquelle que se levanta pelo meio da noite para vigiar; ou antes, aquelle que conserva sempre os olhos bem abertos.

--Makumazan, continuou o Zulú, viu-me em Izand-luana, na vespera da batalha...

Lembrei-me então completamente. Eu fui um dos guias de Lord Chelmsford, na desgraçada guerra com os Zulús. Por acaso, na vespera da batalha de Izand-luana, que consummou o desastre das tropas inglezas, fui mandando levar para fóra do acampamento uns poucos de carrões de bagagens. Quando se estava atrellando o gado, este homem (que commandava um troço de Cafres, dos indigenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o acampamento não estava seguro, que era certa uma surpreza, e que o vento trazia cheiro de inimigo. Respondi-lhe que «dobrasse a lingua», e deixasse a segurança do acampamento a melhores cabeças que a d’elle. Pois grande razão tinha o Zulú! Logo n’essa noite o acampamento foi terrivelmente assaltado... Tudo isso porém vem na Historia.

--Que queres tu? Perguntei. Lembro-me perfeitamente de ti. Dize o que queres.

--Quero isto. Correu aqui voz que Makumazan vai para o norte, n’uma grande expedição, com os chefes brancos que vieram d’além do mar. É verdadeira a voz?