--Prompto?... Larga!

Os bordões resoaram na terra dura,--e largámos.

Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de Suliman, e o roteiro que o velho D. José da Silveira traçára no pedaço de camisa. Cada um de nós trazia na algibeira uma cópia d’esse mappa rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A nossa salvação, n’aquella jornada, seria encontrar a lagôa, ou poça de agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcára a meio caminho entre a aldeia d’onde partiramos e as serras de Suliman. Se a não achassemos, tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela sêde. E, para mim, as probabilidades de descobrir uma lagôa de tres ou quatro metros n’aquella vastidão de areia e tojo, parecia-me minima, infinitesima. Mesmo suppondo que o Portuguez a marcára com exactidão--quem nos afiançava que n’esses trezentos annos ella não seccára ou não fôra coberta pelas areias movediças?

Era n’isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como sombras, iamos marchando sob o luar silencioso. O caminho não era facil: o tojo denso e espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite não estar quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solidão, o silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de teus dôces olhos, parecia lugubre n’aquella severa immensidade. O engraçado homem emmudeceu. E seguimos n’uma fila muda através do matto mudo.

Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de nós uma balburdia medonha de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos fórmas, como garupas, galopando através do tojo, entre rolos d’areia. Os negros atiraram-se ao chão, gritando que eram «demonios acordados»! Eu proprio e o barão ficámos surprezos:--e o nosso assombro cresceu quando avistámos John, apparentemente montado n’um potro, fugindo aos galões para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento mais--e vêmol-o sacudir os braços no ar, e de novo desapparecer, no matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d’um rebanho de zebras adormecidas: John estatelára-se exactamente sobre as costas d’uma, enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalára com o nosso amigo nas ancas. Felizmente não se magoára no tombo final: fomos dar com elle sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido, indignado--mas intacto de pelle e osso.

Depois d’isto marchámos socegadamente até perto das duas horas da noite. Fizemos então uma paragem, bebemos uns goles d’agua (não muitos, nem largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta minutos de descanço recomeçámos a caminhar para diante, para diante sempre, até que o nascente se tingiu de laivos de rosa. Vimos as estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se d’uma tremula refracção d’ouro--e ser dia!

Não parámos apesar de já cansados--pela certeza de que bem cedo o sol, nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido esplendor. Com effeito, ás seis horas já ardia! Por felicidade avistámos então na planicie um montão de rochas. Para lá nos arrastámos, exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um pedaço d’areia fina. Abrigo providencial! Alli nos aninhámos: e, depois de beber alguns goles d’agua bem contados e de comer uma lasca de biltong, adormecemos deliciosamente.

Ás tres horas acordámos. Os carregadores que tinham trazido as cabaças já se preparavam para voltar á sua aringa. De sorte que absorvemos uma farta tarraçada d’agua, enchemos de novo os cantis, e distribuimos pelos homens as facas de matto promettidas. D’ahi a instantes vimol-os (não sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha para o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua!

Ás quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo tudo de redor se parecia alargar em silencio e desolação. Ao principio ainda avistavamos, aqui e além, entre o matto, um abestruz. Depois, nem mesmo reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a mosca lá está. Foi este decerto o primeiro dos sêres vivos que surgiu sobre a terra. Já havia moscas para pousar no nariz de Adão. O derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno á face. E talvez haja moscas no Paraiso.

Ao sol-posto parámos, esperando que nascesse a lua. Mais bella e serena que nunca surgiu ella ás dez horas--e toda a noite, sob o seu calmo e pensativo brilho, na mudez da vastidão, caminhámos, caminhámos... O sol nado pôz um termo á valente marcha. Sorvemos por conta uns goles d’agua dos cantis, atirámo-nos para cima da areia, e alli nos tomou o somno a todos quatro simultaneamente. Não havia necessidade que um velasse. Nada tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n’aquella immensidade despovoada. D’esta vez porém nenhuma rocha nos abrigava--e ás sete horas acordámos sob o sol faiscante, com a sensação que deve experimentar um bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo fritos! O sol por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos erguemos, de salto, quasi sem respiração.