Mas depois, fóra, na plena luz, olhámos uns para os outros--envergonhados.
--Vou vêr outra vez, exclamou o barão terrivelmente pallido. Talvez a figura que vimos seja a de meu irmão.
Era possivel. E um por um, n’um silencio apavorado, atraz do barão, tornámos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados pela grande luz exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava. Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra. Avançámos para ella. O barão ajoelhou, espreitou a face morta, teve um suspiro de allivio:
--Não, graças a Deus, não é elle!
Fui tambem olhar. Não, nem remotamente se parecia com esse sujeito chamado Neville, que eu encontrára em Bamanguato. O cadaver era o d’um homem alto, de meia idade, com feições aquilinas, cabello já grisalho, e longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda esticada sobre os ossos. Não tinha fato, a não ser uns restos de meias altas, de lã, até aos joelhos. Do pescoço, preso por uma correntesinha, pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe tinham petrificado.
--Quem poderá ser? Murmurei, assombrado.
O capitão John contemplava a figura pensativamente.
--Tenho uma idéa... Não póde ser senão elle! É o velho fidalgo! É D. José da Silveira!
Eu e o barão soltámos o mesmo grito de incredulidade:
--Impossivel! Ha trezentos annos!