Ergui pois a mão, e disse, com vagar e magestade:

--Já que vos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo tambem em vos dizer quem somos. Somos Espiritos! Vivemos além, por cima das nuvens, n’uma d’aquellas estrellas que vós vêdes de noite brilhar. E viemos visitar esta terra, mas em paz e para alegria de todos!

Entre os indigenas correram grandes ah! ah! Lentos e maravilhados.

Eu prosegui, mais grave:

--Nós conhecemos todos os reis e todas as gentes. E eu, que sou a voz dos outros, conheço todas as linguas.

--A nossa bem mal! Arriscou com timidez o velho guerreiro.

Dardejei-lhe um olhar chammejante que o estarreceu. E gritei logo, para fazer uma diversão brusca áquella observação tão justa e perigosa:

--Viemos em paz, é certo! Mas fomos recebidos em guerra. E talvez devessemos castigar já o ultraje feito por esse moço, que sem provocação atirou uma faca ao Espirito divino cujos dentes de repente nascem e cahem.

--Oh não! Meu senhor! Gritou n’uma anciosa supplica o velho guerreiro. Poupai-o! Poupai-o, que é o filho do nosso rei! Eu sou seu tio, que o ajudei a crear. Só eu respondo por cada gota do sangue que lhe gira nas veias!... Oh meu senhor, a clemencia vai bem aos Espiritos!

Affectei não comprehender a angustiosa prece,--e tornei, com superior indifferença: