A cohorte formidanda d'aquelles que, todos os dias, se convertem ao principio conservador e religioso, e que em França constitue o melhor da sua intellectualidade, essa indubitavelmente foi picada pelo microbio tumular do medo...

Quando Balzac—o mestre incontestado do romance naturalista moderno—gravou na primeira pagina da Comedia Humana: «J'écris à la lumière de deux verités éternelles, la Monarchie et la Réligion», alguem, d'entre os livres-pensadores hodiernos, terá sombra de duvida em o declarar atacado, damnado por essa dupla phobia que perennemente se exhala do berço e que a tumba perennemente exhala?!

Mas estas duas theorias—chamemos-lhe, já agora, microbianas—parecem-me inconsequentes se observarmos o movimento{18} intellectual que vae na esteira dos grandes convertidos e que se accentúa, d'um modo patente, nas escholas de direito, nas de medicina, nas de lettras, nas de sciencias sociaes... O individuo isolado desdobra-se em legião, transforma-se em grey, escreve um evangelho, fórma um corpo de doutrina. Ora, a doutrina não tem berço d'onde se desprendam miasmas herdados e não tem coval d'onde se ergam espectros terroristas do Além...

Inconsequentes, ainda, se attentarmos em que o fundo de misticismo atavico religioso apenas se accentuou, com incremento que em cada dia augmenta, ha uma duzia de annos. Então, as influencias misticas do berço e as influencias preagonicas não incidiam (se não por excepção) sobre os individuos de 1890, por exemplo, e determinam reviravoltas subitas e ruidosas nos individuos de então para cá?!

Porquê?

Entre nós, estes phenomenos mais ou menos retumbantes, mais ou menos silenciosos, de regresso ao conservantismo politico e religioso, toma um caracter de particular importancia digna de estudo e, quer-me parecer, de limpidas conclusões.

Os espiritos que mais influiram sobre a mentalidade portugueza das ultimas decadas—os nossos super-homens—foram: Anthero, Camillo, Theophilo, Junqueiro, Oliveira Martins, Eça, Ramalho, Fialho, a quem, ainda poderemos juntar, embora a sua acção fosse menos profunda por agir sobre um publico mais restricto, mais especialisado, José Pereira Sampaio (Bruno), Basilio Telles, Antonio Candido.

D'estes tres ultimos, direi, summariamente, que Bruno, depois de exercer uma acção mediadora, de grande nobresa{19} e isenção no regimen de que fôra um dos corifeus mais cotados, se entregou a um mutismo descoroçoado de desilludido, de incomprehendido...; que Basilio Telles, chamado a collaborar pessoalmente nos successivos governos que a sua acção de publicista illustre ajudou a collocar da Arcada do Terreiro do Paço, se limita a escrever uma carta de recusa e a deixar-se quieto na sua thebaida portuense...; e que Antonio Candido, depois de enriquecer com o mais prodigioso verbo—que jamais ouvidos de Portugal ouviram—todas as tribunas onde a eloquencia alta pode ter assento, se recolheu ao eloquente silencio dos vencidos... na torre-de-marfim dos seus affectos e das suas recordações.

Dividamos os restantes em dois grupos. No primeiro—o dos poetas e phantasistas—collocaremos Anthero, Junqueiro, Camillo, Theophilo; no segundo—o dos propriamente criticos—Oliveira Martins, Eça, Ramalho, Fialho.

Propositadamente, colloquei o Snr. Dr. Theophilo Braga entre os poetas e phantasistas, porque, embora a sua obra poetica seja menos conhecida que os seus trabalhos de construcção historica, é certo que o fundo impulsivo de sensibilidade do vate e do phantasista transparece, como o azeite, á tona de toda a sua obra de racionalismo e de critica atravez da copiosa collecção dos seus escriptos do polygrapho eminente.