—É geralmente o que succede. Deu-se commigo o mesmo facto, disse o doutor. E voltando-se para mim: Imaginava o Rio uma cidade artistica, monumental e nobre, com abundancia de marmores, avenidas, longos passeios abrigados sob toldos, palacios de estylo e o fausto classico. A cruzarem-se pelas ruas carros, cavalleiros; o luxo incomparavel do sonho, a sumptuosidade da fantasia, o espirito, a elegancia, a belleza, e encontrou uma cidade vulgar, sem nada absolutamente do que lhe emprestara a sua imaginação, não é exacto? Sorri, mexendo lentamente o meu grog.
—Commigo succedeu exactamente a mesma coisa. Quando daqui parti, em 80, para ter o prazer de pisar o solo trilhado pela humanidade nas suas marchas atravéz do tempo, desde a éra aryana até o periodo em que se moveram da terra de França, para as campanhas ambiciosas, as legiões que seguiam a aguia altiva de Napoleão, fui perdendo illusões a pouco e pouco. Era já com tristeza que descia a escada do navio quando chegavamos a algum porto, porque levava de antemão a intima certeza de que ia ver aluir-se um dos meus sonhos—e era fatal.
Paris, por exemplo—é um assombro, incontestavelmente... um assombro! Infelizmente, porém, o Paris que eu imaginara era o antigo, que eu vira descripto nos primeiros romances que me entretiveram as horas de mocidade—Paris dos duellos, Paris dos lansquenets, Paris das tascas romanticas, Paris das vielas escusas, onde, á noite, á luz fumarenta das lanternas, tiniam as finas e flexiveis espadas dos pagens rebatendo a rapière dos burguezes, Paris de Ponson, Paris de Dumas... É ridiculo, não é? mas infelizmente é um facto geral.
Essas impressões das primeiras leituras que nos ensinaram a devaneiar, que nos tomaram pela mão para nos mostrar a estrada azul da fantasia, não esmorecem facilmente. É debalde que procuramos suffocar esse residuo de infancia ou de imbecilidade que fica em nossa alma, lendo solidas e doutas philosophias, espanando os preconceitos com o vasculho da critica e da analyse, destruindo, com as verdades da historia, as fabulas que adquirimos na novella e no conto. Esse sedimento subsiste como germen abafado de onde, longe em longe, espontaneo e violento, rebenta um broto de sentimentalismo.
A verdade é que nós temos duas divisões—a do mundo real e a do mundo imaginario, e esta é a primeira que buscamos. É atravéz della que a Poesia entrevê o céu, ella é que torna o mundo possivel, variando constantemente a sua face. Porque é que os astros são eternamente bellos? É porque nós os olhamos com um pouco de imaginação. O Oriente, por exemplo... que decepção, meu amigo! Quando desembarquei em Beyrouth, que é, por assim dizer, a porta da Syria, senti tal aperto d’alma que a minha vontade foi voltar para a cabine, a bordo do paquete, que ainda se balouçava no porto. Tudo quanto eu julgara encontrar nessa terra ancestral estava entulhado pela civilisação, aluido pelo progresso: A industria fincara os obeliscos das chaminés, que fumegavam como em Londres, como em Bruxellas, como em Amsterdão, a patria da genebra e dos organistas. O beduino, em vez de traçar, como nos tempos historicos, o albornoz listrado, encolhia-se sentado a um canto, fumando um cachimbo Cambier, raspando com as unhas as pernas magras, vestido com um paletó côr de cinza, de golla de velludo. O degenerado que me deu cêrco pedindo solicitamente o guarda-sol e o binoculo vinha assim vestido. É verdade que encontrei um filho do deserto, authentico, mas apezar do seu trajo pittoresco de scheik, apezar do yatagan e do cinto vermelho, ruminava um francez duro, offerecendo umas pedrinhas claras de uma fonte milagrosa citada pelo Propheta.
A Palestina... uma miseria! Mas o que jámais esquecerei é o que lhe vou dizer seccamente, em quatro palavras. Quer saber o que encontrei no alto do Calvario, justamente no sitio santo em que foi crucificado o Christo? Inclinou-se todo para mim olhando-me, fixando-me como se quizesse magnetisar-me, por fim disse com um gesto, sacudindo o punho e deixando cahir palavra por palavra com força e furia:—um grande mastro com um cartaz annunciando um leilão de jumentos... Um leilão de jumentos, é exacto! E virou de um trago o cocktail.
Que quer? os homens entendem que podem encerrar todas as tradições das raças nas vitrinas dos museus, já dispensam os sitios santos da religião, porque a Luz é a sciencia. Deus começa a ser analysado como o bacillo-virgula.
Meu tio, que se sentia ferido nos seus melindres religiosos, inquiriu com uma ponta de incredulidade:
—Mas, doutor, era mesmo um leilão de jumentos? Talvez fossem reliquias...
—De jumentos, vi-os eu no Calvario. Jumentos! E arreganhando os dedos: Quatro patas, commendador. Quatro patas e orelhas! affirmou.