—Sim, trabalha num jornal, é o debulhador dos crimes. Viu um telegramma.

—Isto é o diabo! exclamou meu tio espalmando as mãos nas coxas e derreando o busto.

—Qual, commendador: revoluções inoffensivas. Nós somos um povo bem fadado... todas as nossas revoluções são incruentas. Somos sufficientemente anemicos e é talvez por isso que nos vamos arranjando a secco. O sangue só escorre no noticiario, a carnificina só existe na local. Temos dado ao mundo o exemplo mais perfeito da harmonia dos poderes—as nossas lutas intestinas são uma blague de bom humor para alimento do artigo de fundo. Toda a nossa evolução social tem sido feita, não á custa de sangue, mas á custa de foguetes. Para dar-se ganho de causa a uma ideia basta collocal-a sob a protecção de uma banda de musica. Só ha dois factores de revolução no Brasil—a chirinola e o foguete de lagrimas. A semente da arvore genealogica da brava gente, commendador, é D. Quixote... A sciencia ha de confirmar mais tarde o que lhe digo hoje em palestra: nós descendemos em linha directa do heróe manchego. Até na mania das concessões temos o traço indelevel da alma do cavalleiro errante que promettia a Barataria quando Sancho, desalentado e moído, pedia para voltar á sua tranquilla aldeia. Não creia em revoluções, commendador, são moinhos de vento... moinhos de vento e nada mais.

—Creio bem, creio bem, mas não é pela revolução de Matto-Grosso. Que tenho eu com Matto-Grosso, não me dirá?

—Nada.

—Nada, certamente, não tenho nada; o que me preoccupa é outra coisa. Não imagina como essas historias fazem mal á praça. Basta o telegramma de uma aldeia qualquer, historia de um caudilho que se poz á frente de um lote de homens, para que o commercio soffra. E escancarando os braços: Senhor, correu um dia destes que iam depôr a intendencia de Maxambomba, pois não lhe digo nada: os titulos cahiram. Eu sei bem que o sangue de Abel, de que falam os jornalistas, é uma figura de rhetorica.

—Simples figura de rhetorica e já estafada e innocua, accrescentou o doutor.

—Mas os papeis soffrem, soffre o commercio, soffre o povo. E indignado, fechando o punho: Que diabo, dêem cabo de tudo, rebentem, estourem, mas não compromettam o credito do paiz! Isto é que é patriotismo. Agora estar a gente todo o dia a ouvir: revolução aqui, e cahiu para a direita; revolução ali, e cahiu para a esquerda; governador deposto, e apontou o tecto, revolta nos quarteis, fez um gyro-gyro com ambas as mãos fechadas. É horroroso... é uma vergonha!

Uma voz estrugiu em plena sala stentorosa e indignada.

«Vá ao Paiz... Vá ao Paiz, lá está o boletim...» Era um homemzarrão barbado, intonsamente barbado, uma cara terrivel de propheta, embrulhado numa sobrecasaca enorme, rapada e lustrosa, com um grande chapéu molle no alto da cabeça calva, côr de marfim antigo.