—Cincoenta golpes, meus senhores.
O Guedes já havia tomado posto junto ao rapazola que citara Pascal. O seu olhar cúpido atravessava a espessa bruma das lentes verdes e cravava-se no monte de fixas que o neophyto acariciava cheio de esperança, recapitulando baixinho os sabios principios do mestre. O gordo passeiava semeando fixas com calculo; ás vezes demorava sobre um numero, trincando o grosso beiço rubro, com as sobrancelhas repuxadas por uma meditação profunda e retirava-as, num accesso de palpite, recuando ou avançando para outro numero.
Aproximámo-nos. O doutor, sempre supersticioso, não quiz entrar na primeira parada para jogar com segurança na sorte do banqueiro. O calvo atirou a bola que começou a gyrar, num silencio de anciedade—ouvia-se apenas o leve rumor que ella fazia circulando á borda da roleta, como um satellite minimo em torno de um grande astro, por fim foi amortecendo, amortecendo. O gordo, que acompanhava com ancia o gyro da bola, exclamou:
—Está dormindo! e inspirado: é o 19! disse e precipitadamente atirou sobre o numero tres fixas.
—É o 13, disse o Monteiro, carregando, com a cara á banda, um olho pisco, para evitar o fumo do cigarro.
—Feito o jogo! annunciou o banqueiro. Recolheram-se todos e o calvo, gravemente, espalhando pelo tapete um olhar de exame, cantou. Duplo zero.
Houve uma exclamação desabrida: o numero estava livre. O rateau recolheu todas as fixas e já outras cahiam atabalhoadamente, algumas rolavam. Cruzavam-se braços afflictos. Os de uma ponta pediam obsequiosamente que lhes puzessem duas fixas no 3 ou no 8 e entregavam espichando-se; outros consultavam o mostrador compenetrados, sisudos. O Guedes escrevia numa tira de papel.
—100 fixas! exclamou o doutor e eu, sacando do bolso o dinheiro que me dera meu tio, dei a troco de outras tantas fixas uma nota de duzentos mil réis.
—Quer o troco em cartões ou em dinheiro?
—Em dinheiro, soprou-me o doutor. E eu, immediatamente: