—Porque a Fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que não crê é como o cégo que anda tacteando, sempre arriscado a perigos, bastando resvalar num talude para precipitar-se no abysmo.

A Fé é como a lampada dos templos: sempre accesa e fulgurando.

O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O horizonte do crente é Deus.

—Porque bate com mais vigor o coração á noite?

—As aguas murmuram mais alto no silencio? não, a voz é a mesma, a calma [{42}] é que isola fazendo-a parecer mais forte. Quando trabalhas á sombra da vinha ouves balar o rebanho? não, entanto, á noite, soergues-te no leito á voz lamentosa duma ovelha perdida.

O coração parece pulsar com mais impeto nas horas de recolhimento.

Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estellicidio de uma gotta faz ruido. É essa uma das vantagens da noite—estabelecer o silencio, a quietude nalma para que a consciencia faça o seu acto de contricção.

—E as estrellas? quem as accende no ceu?

—Aquelle mesmo que abre as flores na terra.

—Ninguem o vê.