Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras.

Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, respondia aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.

O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar.

Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra [{95}] o leproso que se encolhera estarrecido.

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Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e, tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz.

O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeçasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que o alcançara, poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo.

E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em espanto os hospedes do albergue. [{97}]