Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, repetindo [{100}] inspiradamente as palavras que lhe sahiam d'alma:

«Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se és Tu que em mim assistes, bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde deves romper, germen da Redempção, em Flor de Misericordia.

Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o Amor no coração dos homens.

Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se é do meu seio que vais jorrar, bemdita seja a Dôr que me lançou na vida, bemditas sejam as lagrimas que já por Ti hei vertido. [{101}]

Espirito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que Te hei de dar, bemdita seja a afflicção de minh'alma na hora atormentada em que, innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha virgindade.

Espirito Perfeito, se És a Redempção annunciada, bemdigo a Tua vinda, sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trámite e prostro-me ante a Tua Graça e exalto a Tua Beneficencia.

Espirito Perfeito, Sêr dos sêres, não nado ainda, gloria a Ti e á Tua origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que se não macula por transmittir ao corpo a visão.

Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que elle alumia, entra, pelo olhar, no cerebro. [{102}]

Eu sou a pupilla que communica ao Universo a Claridade Magnifica.

Espirito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua Virtude e pela Tua Excellencia. Sahes da carne mortal sem trazeres peccados: passas por ella como uma imagem que se reflecte nagua.