Todos aquelles atalhos tortuosos, [{21}] aquelles carreiros invios haviam sido, em tempos remotos, trilhados por patriarchas.
Ali haviam-se travado batalhas sanguentas; ali alvejara a tenda, crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas de Iaveh omnipotente.
Por ali andara Elias trovejando oraculos. Judith afiára o gladio libertador nas arestas daquellas penhas.
Em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa: era o sol.
Já apparecia uma nesga de azul; arvores, moutas destacavam-se: a mortalha rasgava-se para a resurreição.
Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a victoria da Luz. E Maria, contente, d'olhos em extase, esperava [{22}] o astro annunciado pela fulguração das nuvens.
Num recanto, entre mirradas arvores de troncos retorcidos, uma agua escura e quieta reluzia.
Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.
Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de somno, sentou-se tão perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta.
Viu-se sem vaidade, com a mesma innocencia com que se revê o passaro e, num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.