O conde de Marvilla teve um sobresalto. Voltou-se para trás. A Gracinda vinha com um vestido de tonkin cinzento que mostrava toda a{58} graça fragil do seu corpo magro. O conde commentou, eriçando mais o bigode loiro, cortado á ingleza:

—Um cabide para vestidos!...

—Mais caridade!...

—Ah, já sei: tem pelo menos um flesh na mão... Passo!

Depois, olhando ainda a figura esbelta que sahia...

—Mas ella não é uma mulher—é uma boneca de Nuremberg!... Vejam o andar articulado, mechanico... Tudo aquillo se mexe por molas! E aquella cabeça d'arara a dar a dar, como se estivesse presa ás espaduas por um parafuso lasso? E depois, meus amigos, ella é toda postiça... O cabello loiro pertenceu já a tres cabeças... É uma mulher feita de collaboração por um cabelleireiro, um droguista e uma costureira. Tudo aquillo é sustentado por baleias e faixas, senão desabava, de lasso... Imaginam que o marido está arruinado por causa dos vestidos? Não: pelos cosmeticos... Á quantidade de drogas que anda por aquella pelle é inconcebivel. Já repararam em como se não decóta nunca, completamente, que o collo é sempre coberto por uma gaze ou uma renda? É que a pelle, estragada por uma pitiriasis qualquer, esfarella-se. Todas as manhãs a creada de quarto tira-lhe kilos de farellos da cama. E já não pode com o serviço de maquilhagem—tapar{59} buracos, concertar rugas, pés-de-gallinha, disfarçar sardas e signaes de variola—manda chamar um trolha...

—Seu amante?

—Talvez... Para a rebocar. Para que ande, é preciso dar-lhe corda. Anda sempre da mesma maneira, ás continencias, cabeça para cima e para baixo, como um d'esses bonecos movidos por relojoarias. Imagina que aquillo é o andar rythmico das parisienses, esse andar leve e airoso como o d'um passaro... É parisiense, é: tambem são parisienses as macacas que nascem no Jardin des Plantes... Ainda por cima, velha. Não tem frescura nem mesmo nos olhos parados, conçados do espelho. A pelle despega-se da carne e na cara faz papeiras em feitio de bambinellas. E toda aquella pintura, ás chapadas, faz sombras, augmenta-lhe as papeiras...

—Tens-lhe odio!...

—Não, tenho olhos. Não é preciso mais. Por causa d'ella lá me fez você um bluff sem eu dar por isso...—Conheço-a muito. Veiu da provincia e por ahi andou a mostrar ao Chiado e á Avenida as suas toilettes, como um manequim de loja de modas em furor de reclame. Ninguem a recebia, senão as casas em delirio de festas, onde a ida d'um conde, dos feitos ultimamente ás canastradas, enche de jubilo os amaveis donos da casa, como se diz nos jornaes.{60} Mas a sua ambição era do podre-de-chic, e não podendo suppôr-se com sangue azul—a mercearia do pae, ainda lá está a falsificar—imaginava-se com o chá das cinco horas nas veias... Um chá requentado como o espirito d'ella, estudado em velhos almanachs.