Á tarde, vista da Giralda, ella se nos oferece, nua, ondulosa, apenas com a cinta azul do seu rio e as joias das cupulas e das janellas que scintillam ao poente. Parece que estaca o movimento, e que, na alcova enorme que é a planicie, Sevilha se estende, com flôres no cabello e uma volupia extrema em todo o seu ser. Anda no ar um amavio. Tudo nos falla d'amor sensual e quente, até os olhos largos das sevilhanas, que parecem recortados n'esses enormes amôres perfeitos de velludo.{195}
Foi ali que tivemos a festa de que lhes fallei. Imaginem que na margem esquerda, a dois kilometros da quinta da Carrillos, ha uma venta, cuja varanda se debruça entre trepadeiras, sobre o rio. A marqueza tomára-a sem custo por sua conta e alli varias musicas nos tocaram, não gavottes leves, mas doridas malagueñas em que se arrasta um langor, como um beijo em que toda a alma succumbe. Um jacto de luz inundou a gondola. A condessa levava as mãos dentro de agua, curvada ella propria para o rio. Strifforth ia sentado sobre a borda. Deixou-se escoar vagarosamente.
—Caiu um!
—Strifforth!
Logo os braços se estenderam, um dos gondoleiros deitou-se á agua e poude tirar Strifforth, todo ensopado no seu fato de seda.—Borracho! Borracho! Mais vous êtez ivre! Dites!—Strifforth, não bebera uma gotta. Eu ficára proximo d'elle. Os musicos não tinham dado por nada. A musica continuava dolorosa e amorosa. A gondola seguiu, deixando o traço de luz que brilhava e se quebrava d'encontro ás leves vagas. Houve risos. Rodearam-o com grinaldas. A Valdelar teve, como os outros um riso.—Escorreguei!... explicou apenas o conde. Mais adiante, porem, já a musica se ouvia em surdina, Strifforth deixou-se cair outra vez.—É demais! Está bebedo! gritaram. As{196} cabeças empoadas inclinaram-se novamente para a agua. A Valdelar, que tornára a mergulhar no rio os braços nus em que escorriam as rendas molhadas, ao sentir a queda, agarrou-o por um braço, indiferente. Strifforth, porem, deu um vigoroso impulso e desprendeu-se d'ella...
Houve um panico. Foram buscar archotes. Não calculam o macabro das nossas figuras de petits-abbés e gentishomens procurando, nos barcos, que de tanta luz pareciam incendiados, um homem que se queria suicidar. Os gritos cruzavam. Das pequenas gondolas surgiam vultos negros iluminados á maneira d'um Rembrandt que tivesse adivinhado Turner e Whistler, em chapadas de luz multicôr. Na nossa gondola um borborinho correra. Alguem desmaiára, até. As cabeças empoadas agitavam-se. Ao longe, as malagueñas continuavam num suspiro lascivo e preguiçoso. A Valdelar voltára á sua primitiva posição: brincava com a agua, que lhe passava entre os dedos abertos, pondo-lhe aneis que fugiam, logo substituidos. Não tornamos a saber de Strifforth. O cadaver nunca apareceu.{197}
[CLARA]
A JULIO DE SOUSA.
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