«Conhecia-a em Hespanha! N'um inverno humido deixei Lisboa e acolhi-me a Sevilha. Os dias gloriosos de sol que lá gosei pelas margens do Guadalquivir azul! Andava ebrio de tanta luz que enchia d'oiro e de triumpho a cidade alegre. Saia para os campos, logo de manhã, a rir-me com os trigaes e com as flôres. Ia ao parque vêr o sol fulgir nas caudas abertas dos pavões orgulhosos; descia ao caes para vêr brilhar na agua incendiada os cobres polidos dos navios; enchiam-me de prazer a barulheira dos carregadores, o chiar aspero dos guindastes, o estridulo das sereias, nos vapores que partiam... Tudo era alegria na cidade maravilhosa mesmo á noite, as lampadas incendiavam a Sierpee brilhante, onde se apertava uma multidão palradora. Das janellas dos casinos, das portas dos cafés, dos mostradores das lojas, vinham chapadas de luz. Misturava-me a toda aquella vida insolente, ria com todos os risos, todos os labios frescos me chamavam, rodeavam-me todas as cabelleiras fartas, cheias de flôres. O donaire das andaluzas d'olhar de volupia fazia-me{202} achar mais bella a Vida. Era como um poema a enaltecer a obra de Deus. Por todos amar, não amava nenhuma.
Comprei o sineiro da Cathedral. Do alto da Giralda, uma noite, possui a cidade, senti que todo o tumulto confuso que até mim chegava, era o seu sangue que pulsava por mim nas suas arterias; aquella resplandecencia, brilho de joias com que cobria a nudez. Os tranvias iluminados, cortando em mil direcções a cidade, eram pedrarias, aqui se apagando uma, para alem se accender outra, conforme as ia eu tocando com os meus olhos amorosos. Ella, em baixo, abria os seus braços, entregava todo o seu corpo, a morena Sevilha, offegante e lasciva!
«Era feliz, poderosamente feliz. Sentia, em cada palpitação cardiaca, o sangue remoçado que se espraiava pelo corpo. Foi então que conheci Clara. Ella passava pela Sierpes, junto ao Credit, enygmatica, como a viste. A elegancia do seu porte, ultima florescencia da moda franceza, quasi immaterial, contrastava com a forte humanidade das sevilhanas cheias de vida, de sangue e de desejos. Todos se voltaram para ella e lhe abriram caminho, como se passasse um andor. Fui logo preso pelo encanto decadente e artificial, esqueci a Vida e a gloria de viver ao sol nos campos fecundos. Regressei á hyper-civilisação; segui-a e alegre entrei, atraz d'ella, para o seu e meu hotel.{203}
«Vergonhosamente a segui como um cão fiel. Vergonhosamente mendiguei um olhar dos seus olhos parados; e contente fiquei ao vel-a um dia no salão da leitura, por que pude dirigir-lhe a palavra e pedir-lhe licença para fumar. Apesar da resposta secca, insisti e entabolámos conhecimento.
«Doces foram para mim os dias, em que visitámos Sevilha. A casa de Pilatos e as suas penumbras em que esmaecem estuques e o patio claro de marmores harmoniosos ouviram as palavras aladas que lhe disse; diante das Assumpções do Murillo e dos frades de Zurbaran, no museu deserto, contei-lhe o poema do meu desejo; na Caridad, a mostrar-lhe a estatua de Herrera, ouviu a perfumada e embaladora cantilena. Na Giralda, a vêr Sevilha doirada, deitada na planicie que ondulava, até perder-se no horisonte circular, offereci-lhe toda a minha alma e toda a minha vida. Houve momentos em que seus braços foram a levantar-se para apertar o meu pescoço; julguei sentir o seu peito leve arfar de commoção: muitas vezes a boca se apertou para a florescencia dos beijos e seus olhos verdes se encheram de luz; mas rapido, tudo se desmanchava, e um sorriso tremia na boca desmaiada, a mostrar a linha branca dos dentes.
O flirt desabrochava. Uma tarde, nos jardins do Alcaçar, á porta dos banhos de Maria Padilla,{204} passou por mim o corpo delgado, agil, pela cara roçou o cabello que tinha um perfume penetrante; fallou-me do seu corpo e, sentados no salão dos Embaixadores, estendia a perna, para mostrar o tornosello fino e a meia ajourée, que deixou vêr a pele branquissima. Todas as noites eu pensava, que no dia seguinte beijaria a boca perfumada. E todas as manhãs via cair a minha esperança, como as folhas murchas que o vento sacode dos ramos seccos.
«Certamente que as minhas palavras deviam ser perturbantes, porque sahiam d'um coração perturbado. E, pesadas de tanto amor, cahiam da boca vagarosamente. Ás vezes os cilios de oiro abatiam-se sobre os olhos, como n'um espasmo. Mas logo o sorriso abria-lhe a pequenina boca!
«Longos dias, longas semanas, durou o encantado oaristo. Já não cuidava da gloria da natureza; das apoteóses do sol sobre as aguas azues do rio. Só pensava n'ella, só vivia d'ella.
«Um dia, porem, eu soube! Alguem, com palavras que julgou caridosas, veiu pôr no meu coração as sete espadas! A creaturinha delicada e deliciosa, princeza de balada d'hoje, urna de perfume, a quem me entregava como um collegial, era uma aventureira das que frequentam a Riviera no inverno, Aix no verão, Paris na primavera, e que a Sevilha viera atraz d'um{205} clown, que no circo fazia rebentar estrépitos de gargalhadas... Ao seu morbido encanto me prendera, e atraz d'ella me fui a soluçar, flor de lameiro em que puz todo o perfume suave... Fôra nas mãos d'ella um saxe fragil como que se brinca!
«Ah, meu amigo! O desespero e a raiva puzeram mãos assassinas a estrangular-me! N'um impeto, como uma aura que se nos levanta do peito e nos atira para o ataque epileptico, decidi-me. Levei-a n'um trem para o campo, para alem da Cartuja, com um cocheiro de confiança. E alli, desapiedadamente, bati-lhe, arranquei-lhe as sedas e as rendas—parecia, nua entre os trigaes verdes, uma magnolia enorme!—e o seu corpo cobriu-se todo de sangue. Clara gemeu, implorando; as lagrimas empastavam a maquilhagem; via-a sordida, enrolando-se para escapar ás chicotadas, e fugi, ebrio, doido, a correr, diante do cocheiro espantado que me metteu no trem e me levou a Sevilha.