Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile...
—Depois d'uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa do viço. É necessario podar o coração...
—Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me...
—Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que a cultura intensiva do Eu tornava impossivel um amor sem esperanças... Filosofos!...
—Amar-te, não é para mim uma função: é a propria essencia do meu ser. Julgo ás vezes que não existes, material e tangivel, que existes mais real: nasceste e vives no meu cerebro, tanto se casa a tua figura ao meu sonho de belleza. Pintor, se idealisasse uma mulher, o meu quadro pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu misterio seduz-me, alma que se guarda, avidamente, sem que ninguem a adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterraneo socegado, estudei a onda, sem conseguir conhecel-a. As ondas são graciosas, as suas curvas teem ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva fresca. E desfazem-se em flocos de espuma,{214} quebram-se umas contra as outras com fragilidade de cristaes, são leves como leques, e no emtanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados, despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca aza d'abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As mutações rapidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu sem se saber porquê...
Nem sequer recrimino. «Não me esqueço», prometeste. E as tuas palavras que guardei, como guardaria uma estrella, ainda cantam nos meus ouvidos. E ha tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do passado, como as velhinhas, que foram actrizes, e no asilo se lembram das aclamações quando faziam papeis de rainhas sumptuosas com luzidas cortes a seguil-as e galãs esbeltos a segredar frases d'amor...
Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo não chove...»
Ella cortara e desfolhára as margaridas de uma moita viridente. O sol ia a morrer, n'uma catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em sangue. N'uma fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se na agua do tanque.
O amante chorava...{215}