Sir Arnold falava com fluencia:{227}
—Todas as creaturas devem ser, para nós, elementos de desenvolvimento do poder, utilidades. Extraido d'ellas o que nos pode servir devemos pol-as á margem. É o que o organismo faz, inconscientemente... Quem sobrecarrega com sentimentos inuteis o seu coração, apodrece, morre. Devo todo este ensinamento filosofico, não aos livros, nem ás conferencias, mas a uma pobre caissière, Eva Farland, d'um pequeno restaurante do Strand onde eu jantava economicamente nos dias em que não encontrava emprego para o meu mister agradavel de pique-assietes. Ali, por um shelling e meio tinha uma boa talhada de mutton e uma caneca de cerveja, para desalterar.
Essa pobre rapariga prendeu-se nos olhos azues de Davis; prenderam-a seus braços fortes, a sua boca que ao beijar mordia. E foi para elle como uma escrava, atenta, paciente, devotada, gastando o seu ultimo penny em futilidades que Davis atirava para o lado, com desdem, dando-lhe quarto, copiando á noite escritas, para pagar a luz, a lenha, a agua, porque Davis fôra viver com ella, por economia—era um periodo de guigne extraordinaria!—persuadindo-se a pobre Eva que era por amôr. Doce e abençoada mentira que a tornava feliz, dava-lhe coragem para continuar a vida dura, fornecia-lhe a energia necessaria para estar á caixa todo o longo dia, esperar, ás vezes, por elle{228} toda a inferminavel noite, quando o jogo o segurava com a caricia aspera das suas mãos de aço; resignar-se ás longas ausencias, porque Sir Arnold, em ganhando alguns guineus, reentrava na sociedade, ia jantar ao club, frequentava os music-halls nos camarotes do club, reencadernava-se, emfim, de gentleman.
Eva era o seu cão, mas cão de cego, util, chorando ás escondidas e pouco, para não afear o soberbo rosto, não avermelhar os grandes olhos sensuaes e tristes.
N'um periodo mais largo de miseria, não chegando para os dois o salario da amante, nem as copias, ella punha o chapeu, á noite, e ia pelo Picadilly, misturando-se aos soldados, a fazer-lhes concorrencia, á caça do guineu pondo em cada sorriso, um soluço.
Davis via-a sofrer, indiferente, achando rasoavel que por elle outrem penasse, continuando descuidado, até que um dia a fortuna sorriu-lhe pela boca desdentada d'uma rainha de qualquer coisa na America, porco salgado ou azeite de fóca. Nunca mais soube d'Eva, de quem nem sequer se despediu, e que, se não morreu de dor—o que é pouco provavel—teve com certeza uma lancinante crise de desespero.
Ora essa mulher, que por elle fez todos os sacrificios, incluindo o do pudor da amante, considerava-a elle o seu mestre de egoismo, pois habituára-o a pensar que o amôr pode ser um{229} modo de vida e a belleza extranha e fascinante suprir as aptidões para a lucta pela vida.
Foi a confissão que me fez n'uma noite de vinho, em que o Cliquot d'oiro levára ao seu coração impassivel o desejo de expandir-se.
Não tornámos a falar no assunto, persuadi-me até de que elle não tinha consciencia da propria indiscrição e continuei a examinal-o no interessante combate travado com lady Hanswell.
Parece que a embriaguez produziu o seu efeito, porque lady Hanswell começou a lançar-lhe, por vezes, obliquamente, olhares em que punha alguma coisa de caloroso, as lagrimas deixaram de borbulhar-lhe nos olhos, que andavam secos do desejo que ardia dentro.