A carruagem do marquez de «la Tournelle» transpunha a porta do castello e ainda se ouviam os applausos e os gritos dos cidadãos reunidos na «Poule Blanche» para festejar a chegada de Ronquerolle e{30} dos seus tres amigos Branche, Didier e Maupertuis.

A chegada do candidato republicano e dos seus companheiros de lucta, estava sendo um acontecimento extraordinario na pequena cidade de Saint-Martin. Toda a população estava impressionada. Viam-se pelas portas as mulheres ou faziam grupos nas ruas; os homens tinham invadido todos os cafés na cidade e fallavam com animação da lucta eleitoral.

Na «Poule Blanche» a multidão augmentava a cada instante. Os discursos tinham terminado e os ouvintes trocavam as suas impressões acêrca dos oradores que tinham tomado a palavra. Maupertuis tinha fallado depois de Ronquerolle. Recorreu para o tom ironico e os seus sarcasmos, cheios d'espirito parisiense, tinham posto o auditorio n'um bello humor. Depois de Maupertuis, o presidente do «comité» republicano, Kolri, desenvolvêra um pequeno discurso cheio de bom senso e d'energia. Tinha posto o marquez de «la Tournelle» nas peores condições e os exaltados não fallavam já senão em ir cantar a «Marselhesa» debaixo das janellas do castello.

Pouco a pouco, porém, a «Poule Blanche» ficou sem ninguem. A hora de fechar tinha chegado. Kolri, «o bravo Kolri» ficara com os parisienses, acompanhando-os a um quarto cujas janellas davam para a rua principal. Organisou-se então, uma pequena sessão onde foi elaborado um plano de campanha.

—Em primeiro logar meu caro Korli, disse Ronquerolle, tenho que avisar-vos{31} de que vamos fundar um jornal. O primeiro numero sairá depois d'amanhã. Chamar-se-ha «Reveil de Saint-Martin».

—Vamos ter um jornal! gritou Korli; Pois bem, será o suficiente para destruir o marquez. Um jornal! Um jornal independente! Era o que ha muito faltava aqui! Ah! a imprensa! É a alavanca do progresso!...

O bravo Kolri ia a continuar o seu discurso quando bateram discretamente á porta. Didier abriu-a e appareceu Lapierre. Contou a Ronquerolle a scena do castello quando o marquez de «la Tournelle» lêra no «Figaro» a noticia da sua candidatura, e referiu quasi palavra por palavra os termos humilhantes com que o conde d'Orgefin fallara a seu respeito.

—Perfeitamente! disse Ronquerolle. Maupertuis, toma nota da «delicadeza» da linguagem do conde d'Orgefin! Redigirei immediatamente uma resposta á mensagem d'esse canalha.

Os clarões do odio brilhavam nos seus olhos. No emtanto, tinha um ar perfeitamente calmo e a sua voz não traduzia emoção alguma extraordinaria.

—Ah! ah! somos homens sem valor, escorias de Paris, revolucionarios e escrevinhadores! Ouvis, amigos, em que termos se falla de nós! Guerra, guerra implacavel a esta nobreza que nada conhece e que se julga ainda antes de 89... antes de 93!