—Vejamos, disse Ronquerolle, quereis que vos ajude a confessar a verdade? É o marquez, não é verdade, que vos ameaça se nos concederdes a sala? Deve ter-vos lembrado a sua qualidade de «maire» da cidade, e, como necessitaes da sua auctorisação para conservardes o vosso baile aberto até ás 5 horas da manhã, o marquez fez-vos comprehender que d'ora avante vos recusará essa licença, no caso de eu vir fallar em vossa casa aos meus eleitores!
Baliverne, olhando em volta de si para se certificar que ninguem o escutava, respondeu a Ronquerolle:
—Palavra d'honra sr. Ronquerolle, ouvi-me,{67} eu sou um homem energico mas tenho filhos a sustentar e vejo-me por esse motivo obrigado a agradar a todo o mundo; não me trahireis não é assim? Confio em vós. Pois bem, haveis adivinhado tudo o que aconteceu! Foi o marquez, o maire que me fez comprehender como o sr. disse, que não queria que a reunião se realisasse em minha casa. Aquelle canalha tem-vos medo, e, se me recusasse licença para os meus bailes, ao mesmo tempo que me tirava o sustento, privava os rapazes de se divertirem.
Ronquerolle tremeu ao ouvir tal confissão. Sorriu ironicamente, depois do que se apoderou d'elle uma colera fria. Despediu-se rapidamente de Baliverne e encerrou-se no seu quarto.
N'este mesmo dia, na mesma quinta-feira para que fôra convocada a reunião devia elle ter o «rendez-vous» combinado, com «M.me de la Tournelle», nos «Passeios» ás dez horas da noite.
Por uma estranha coincidencia, este «rendez-vous» apaixonado, a que julgava não poder assistir, tornava-se agora possivel.
Quem destruira, afinal, os obstaculos? Quem lançára nos seus braços a bella, a divina Carlota? O proprio marquez de la Tournelle. Invejando-o como rival, temendo o poder das suas convicções, impedia-lhe que fallasse em publico e que conquistasse a popularidade que lhe dava a sua eloquencia. O infeliz! Impedindo Ronquerolle de n'essa noite subir á tribuna, deixava-lhe livre a mulher e era elle mesmo o causador da sua infelicidade.{68}
—Dentro de tres dias, ás dez horas da noite! tinha segredado a marqueza n'essa inolvidavel noite dos «Passeios».
A reunião que devia realisar-se na quinta-feira, ficou adiada para mais tarde. Ronquerolle explicou em o seu jornal o «Reveil» que o detestavel «maire» de Saint-Martin queria tapar-lhe a bocca e impedir ao mesmo tempo que as lindas raparigas da cidade se divertissem com os seus namorados, mas que pouco importava a sua ridicula e idiota firmeza pois que breve teria de se recolher ao seu castello socegadamente a tratar da sua vida particular.
Visto que nada se oppunha á entrevista fixada pela marqueza «de la Tournelle», Ronquerolle preparou-se para isso. Fez irreprehensivelmente a sua «toilette», perfumou o lenço, poz uma gravata nova da ultima moda, pegou no chapeu mais elegante, calçou as luvas mais lindas que possuia e as botas mais elegantes e chegou uma hora mais cedo ao logar da entrevista.