M.me William, no emtanto, dizia que seu marido não tivera razão para a abandonar e todos fingiam acredital-a.

Fôra recebida na sua qualidade de estrangeira, em muitos salões frequentados pela alta sociedade.{124}

Entretanto o papel que ella dezempenhava no meio parisiense dava-lhe protectores altamente collocados e a sua elegancia mundana attrahia indulgencias ao seu procedimento.

Tinha por pessoas da sua amizade, financeiros, homens politicos e especuladores de negocios varios. O fundo da sua existencia era o dinheiro, a intriga, a galanteria, o proprio vicio. Se se tratava de fazer propostas deshonestas a uma consciencia recta, a uma mulher cubiçada, procurava-se para esse fim M.me William.

Por cada operação d'esse genero recebia ella os seus emolumentos. O seu alojamento de seis mil francos era pago com toda a regularidade, assim como as suas bellas «toilettes» e os ordenados dos seus innumeros serviçaes.

M.me William era uma mulher sem pudôr e que dispunha para satisfazer os seus vergonhosos compromissos d'uma actividade inacreditavel.

Era, n'uma palavra, a encarnação poderosa e perigosa da immundicie coberta de ouro, passeando de coche, adulada, procurada; infame podridão, merecendo ser lançada ao monturo, depois de ter sido esmagada debaixo dos pés. Era a lagarta sem nome, de corpo repellente, devastando esse immenso jardim humano que se chama Paris.

Tal era a immunda creatura á qual o barão de Quérelles ia confiar a missão de perder a marqueza de la Tournelle.

M.me William não tinha ainda attingido os quarenta annos. Era bastante formosa; e{125} só por vêl-a e ouvil-a ninguem podia jámais suppôr as torpezas da sua vida.

Falava muito correctamente o francez, com uma ligeira accentuação estrangeira, o que lhe dava mais uma linha de seducção.