Os sacerdotes e os gentios de castas superiores depois de comerem pintam na testa varios symbolos indicativos da seita a que pertencem: Os sectarios de Vichnu usam tres traços verticaes, os de Siva tres traços horisontaes. Estes traços são feitos com cinza de bosta de boi secca, com lodo do Ganges, com açafrão ou com tinta vermelha extraída do Cucomb.

Antes de comer tomam sempre banho, conservando durante algum tempo um bochecho de agua na bocca: depois sentam-se no chão, e servem-se sobre folhas de bananeira. O terreno, que serve de mesa é primeiro barrado com bosta de boi. Antes de começarem a comer percorrem, com a mão as bordas da folha que lhe serve de prato e tomando cinco bocadinhos de alimento, por duas vezes, offerecem-os aos Deuses e aos cinco sentidos. Em seguida comem no mais absoluto silencio. Fui hospede durante alguns dias de um importante personagem gentio, que me tratou admiravelmente, mas naturalmente obriguei-o a tomar maior numero de banhos, porque a minha presença era sufficiente para se julgar poluido, não podendo comer, resar, etc., sem proceder a previas abluções.

Quando um europeu visita um indu, a primeira cousa que este faz é offerecer-lhe a areca e cal, envoltas n'uma folha de bétle, para lhe desejar a boa vinda. São em geral muito hospitaleiros, attenciosos e intelligentes. Nas festas que são muitas, o que mais os extasia é o nautch ou dança das bailadeiras, servas do templo ou devassadis, e diga-se de passagem que taes espectaculos{27} bem longe estão do que a maior parte dos europeus imaginam. As bailadeiras são em geral magras e pouco attrahentes, nem mesmo as encontrei melhores em Benáres.

Apresentam-se vestidas com muitas saias de gase ricamente bordadas a ouro, calças apertadas no tornozello, onde atam uma fita com guisos. A dança consiste n'um rodopio mais ou menos prolongado nas pontas dos pés, batendo o compasso com os guisos, erguendo e torcendo os braços e as mãos, cantando com voz dolente, nasal, e por vezes regularmente desafinada. A musica é composta da mordanga, especie de tambor, tocado com os dedos, e o serungui do feitio de uma rebeca. Eis tudo.

A mulher indiana está bem longe de disfructar a millesima parte da liberdade que tem a mulher europeia, e não será ali que facilmente entrarão as modernas idéas do feminismo.

Egreja de Pangim

A indiana não tem nem gosa dos mais pequenos direitos. Vive sempre na mais absoluta dependencia primeiro, do pae, depois do marido e dos filhos masculinos. As leis de Manú determinam que a mulher nunca póde conduzir-se pelo seu proprio criterio. Os casamentos contractam-se na infancia, mas só se effectuam na idade appropriada. Caso o futuro marido morra antes de ter effectuado o casamento, a noiva fica viuva para todos os effeitos e não póde tornar a casar. Antigamente as viuvas faziam o sacrificio á deusa Satty, deitando-se na fogueira, que consumia o cadaver do marido. Hoje, devido aos esforços do governo inglez, póde considerar-se abolida esta pratica, calculando-se que existem mais de 20 milhões de viuvas que não existiriam se ainda lhes fosse permittido o sacrificio.{28}

A vida que a viuva actualmente passa é infelicissima. Apóz a morte do marido quebra os braceletes, renuncia ao mundo, rapa o cabello, não póde usar o mais pequeno ornamento, não come senão uma vez por dia e vive no mais completo isolamento, mesmo entre a sua familia. Os indus acreditam que não podem entrar no céo se não deixarem na terra um filho que lhe recite as orações á hora morte, por isso a esterilidade é humilhante. O nascimento de um filho varão dá logar a grandes festas. O pae offerece ao seu Deus, côco e assucar, esparge a casa com bosta de boi diluida em agua para afugentar os maus espiritos. Todos os que habitam a casa esfregam a cabeça com oleo de côco, lavam-se e purificam-se. Em algumas localidades faz-se ao sexto dia, a festa á deusa Satty, pondo-se ao pé da mãe uma porção de arroz, dez ou doze litros, rodeada de côcos e uma candeia accesa. Durante toda a noite tangem as gumatas e outros instrumentos, não sendo permittido ás pessoas da casa dormirem. Na casa em que se fizer esta cerimonia todas as mães que tiverem filhos, que ainda não tenham attingido a epoca de dentição teem de sair com elles com receio que o diabo Xatam não se introdusa{29} no corpo da creança cuja bocca desprovida de dentes não pode evitar-lhe a entrada. Ao decimo primeiro dia todas as pessoas se purificam com agua benta Panchá Gaviá, de Panchá cinco, e Gaviá, vacca, quer dizer as cinco excreções e secreções de vacca, a saber: o leite, a manteiga, o sôro, a bosta e a urina.