A India foi, é, e ha de ser, ainda por longo tempo, vasto campo de observação onde todos os investigadores e estudiosos encontram largamente em que applicar o seu espirito. É certo, que muito se tem estudado n'essa grande peninsula, que os nossos antepassados tiveram a gloria de abordar, por caminho até então desconhecido, trazendo-a por assim dizer, ao convivio dos povos occidentaes, mas tão vastos são os assumptos interessantes, que ella ainda hoje apresenta, quer na sua ethnographia, quer na sua legislação ou nas suas religiões e seitas, que ainda muito tempo decorrerá, antes que bem interpretados e conhecidos sejam os Védas e os Puranas, ou que se desvendem as secretas cerimonias que se passam no silencio dos templos, desde as danças lascivas e louvores entoados em honra do Lingam, até aos assombros do fakirismo!

Fallar-vos da India em geral, é remontar a epocas de nós afastadas de milhares de annos, é ir quasi ao berço da humanidade e da civilisação, é embrenharmo-nos no labyrintho d'um phantastico pantheismo, é encontrarmo-nos em presença do principio que divide estes povos em castas, perfeitamente separadas, cavando entre ellas profundos abysmos impossiveis de transpôr, ao mesmo tempo que teriamos de admirar a sã moral do Budhismo, os extraordinarios exageros do Jaisnismo e as phantasticas e dantescas descripções do Ramáyana ou do Mahábaratha.

Fallar-vos da nossa India, é rememorar dois seculos da historia patria, é invocar Affonso de Albuquerque, D. Francisco d'Almeida, Duarte Pacheco e tantos outros, os vultos mais grandiosos, d'esse aureo tempo em que este pequeno povo occidental, abriu com as quilhas das suas naus os mares que se estendem até ao extremo oriente, e em que a nossa bandeira, tremulou em mais paizes e dominou mais povos, do que os que foram avassalados pelas aguias de Augusto!

É, trazer-vos uma série não interrompida de feitos de armas, qual d'elles mais valoroso, desde a heroica defeza de Cochim por Duarte Pacheco até ao cerco de Diu, em que a coragem de D. João de Castro, conseguiu conservar esse florão da corôa portugueza, e que ainda hoje mais nos parecem phantasticos{5} e sobrenaturaes, do que realidades! E quem não se assombrará correndo a costa de Canará e do Deccan, desde Calicut até Bombaim, ao ver essa linha de grossas muralhas de longe em longe, cortadas por baluartes e torres, todas feitas pelas mãos d'esses homens, que assim empregavam o tempo entre dois combates?

Já vêdes, pois, meus senhores, que bem verdade vos fallava, quando classificava de difficil esta missão, que mais difficil ainda se torna quando, para contrastar com a abundancia e elevação do assumpto, se me depara a escassez e pequenez dos meus recursos. Tentarei comtudo desempenhar-me d'elle, procurando não abusar da paciencia de vv. ex.as.

Arco dos Vice Reis (Velha Gôa)

Foi no fim do seculo 15, que as caravellas portuguezas, pela primeira vez singraram nos mares de além Cabo da Boa Esperança. Em maio de 1510, Affonso de Albuquerque conquistava Gôa, que, por falta de lealdade e obediencia dos capitães, que tinha sob as suas ordens, foi obrigado a abandonar. Em novembro do mesmo anno realisava a segunda conquista, assentando definitivamente o seu poder, e cravando ali a primeira estaca, á qual devia prender a rede, que se estenderia de Ormuz a Malacca, que essa fulgurante intelligencia tinha sonhado, para suster todo o commercio do Oriente, arrancando-o ás mãos de mouros, de genovezes, e de venezianos, obrigando-o a vir a Portugal, e transformando Lisboa no grande deposito das especiarias e riquezas d'esses paizes, que a muitos se affiguravam encantados!

É desde essa epoca, que, pode dizer-se, foi firmada de uma maneira immorredoura a nossa soberania na India. E se bem comprehendido tivesse sido o plano d'aquelle grande civilisador e legislador, se n'aquelles que lhe succederam, houvesse a illuminar-lhes{6} a intelligencia, um raio só, que fosse d'aquelle sol, talvez a conquista de toda a peninsula tivesse sido feita sem derramamento de sangue, fixando-se pelo crusamento das raças, pelos laços de sangue, e pelo respeito dos costumes e das leis. Mas não foi assim. A intransigencia fanatica de muitos, que foram chamados a governar aquelles povos, a cubiça e a ambição de se apossarem das riquezas dos naturaes, a preoccupação constante de augmentarem o seu cabedal, abandonando os interesses da nação, foram as causas que pouco a pouco, mas de uma maneira fatal, derruiram os alicerces do nosso poder, tornando-nos execrados em vez de estimados, ou pelo menos respeitados. Não tinha sido essa a politica do grande Affonso, por isso os indios muito tempo depois da sua morte, iam ao tumulo, implorar-lhe a justiça que os vivos lhes negavam! É com essa mesma politica iniciada ha 400 annos, que a pratica Inglaterra consegue apenas com 60:000 homens dominar 180 milhões de habitantes.

Pelo espaço de seculo e meio, esse novo caminho ensinado por Vasco da Gama foi seguido por numerosas armadas que, além das conquistas que faziam, não poucas vezes assignalavam com as quilhas os baixios das costas da Africa, da India e do mar Vermelho, levando no seu bojo os aventureiros que, por seu turno, em vez de trazerem as riquezas que buscavam, deixavam a vida nas mãos dos negros, quando depois de naufragarem eram obrigados a percorrerem em longas jornadas, paizes desconhecidos e povos selvagens, em busca de alguma feitoria ou fortaleza em que se abrigassem. Os chronistas, bem commoventes descripções nos deixaram de taes naufragios! Assim, foram colhidos muitos elementos para as cartas e roteiros!