Eis a cidade morta, e solitaria, Gôa,
Seis templos alvejando entre um palmar enorme
Eis o Mandovy-Tejo, a oriental Lisboa,
Onde em jazigo regio immensa gloria dorme!
A Europa, porém, tinha acordado, nações audazes e invejosas levantavam-se, querendo tambem a sua parte na partilha do mundo.
A Hollanda, a Inglaterra e a França armavam os seus navios e os povos cançados do jugo, que os vencedores não tinham sabido suavisar, revoltaram-se. A guerra alastrou-se por toda a parte.
A fé, o fanatismo e o ideal religioso, tinham em grande parte guiado os nossos primeiros navegadores, levavam sempre alçada a cruz, e se se apossavam das terras, derramando, por vezes, ondas de sangue, ainda tinham perante o espirito da epoca, aquelles sentimentos por desculpa, mas agora os que se levantavam não tinham o mesmo fim, não eram impulsionados pelas mesmas forças, o seu desejo era apossarem-se do nosso patrimonio. Combater para enriquecer.
Durante os 60 annos, que decorreram de 1580 a 1640, em que Portugal esteve debaixo do jugo castelhano, muitas fortalezas, feitorias e praças se perderam, embora a coragem dos portuguezes nunca tivesse sido desmentida.
Pelos fins do seculo XVI, principios do seculo XVII, innumeras naus hollandezas atacavam os galeões e naus portuguezas, que vinham esperar, pelas alturas do Cabo da Boa Esperança, da ilha de Santa Helena e dos Açores. Rijos combates se travaram, verdadeiras heroicidades se praticaram, hoje quasi de todo desconhecidas. Permittam-me comtudo V.s Ex.as que rememore um desses combates, em que a altivez fidalga do soldado, se allia á coragem e á honra.
Em 1601 saiu de Gôa o galeão S. Thiago, commandado por Antonio de Mello e Castro, trazendo 300 soldados e marinheiros, trinta fidalgos e pessoas nobres. Tão carregado vinha, que para melhor governar, a poucos dias de viagem teve de alijar parte da carga ao mar. Dobraram o Cabo a 26 de fevereiro de 1602 e a 14 de março, chegavam á vista de Santa Helena, onde encontraram ancoradas tres naus hollandezas. Aconselharam o commandante a não entrar, mas considerando este, quanto o galeão era{10} mau de vella e o animo, que aos seus inimigos daria a retirada, resolveu demandar o ancoradouro. O commandante hollandez com receio que os portuguezes encalhassem o galeão e o queimassem, como mais de uma vez tinham feito, destacou uma lancha para lhes ir fallar, astucia para os entreter, emquanto duas das naus levantavam ferro e vinham fundear mais a barlavento. Antonio de Mello, percebendo o intento, mandou fazer-lhes um tiro, a que elles responderam com toda a artilharia, começando o combate a tiro de arcabuz, que durou todo o dia. Durante a noite, deitaram os nossos os mortos ao mar, trataram dos feridos, reformaram o apparelho e julgando Antonio de Mello que os hollandezes, dentro da bahia, teriam sempre grande vantagem, resolveu ir para o mar largo, pois se este estivesse agitado, obrigaria os hollandezes a fecharem a primeira bateria, que era a mais importante. Rendido o quarto de prima, levantou ferro, os hollandezes receiando que os abordasse, alaram as naus á terra e tomando-lhe barlavento, evitaram-n'o. Antonio de Mello fez-se ao mar e as tres naus foram-lhe na esteira, travando-se novo combate que durou até á noite. Na manhã seguinte o valente portuguez desafiou os inimigos á abordagem, mas estes preferiram continuar o combate a distancia, fazendo-lhe grande damno. A este tempo já o galeão não tinha governo, a mastreação desarvorada, sem panno, sem cabos e as bombas entupidas com a pimenta que tinha corrida para a arcada da bomba. Os soldados e marinheiros pediram ao commandante para se render, salvando-lhe as vidas, mas Antonio de Mello conseguiu dissuadil-os e serenar-lhes os animos, voltando todos aos seus postos. Em breve, porém, correu a voz que o galeão ia ao fundo, e de novo vieram pedir ao commandante para que se entregasse. Quando assim fallavam chegou o mestre Simão Peres, que ouvindo o commandante responder: Pois ajudae-o a ir, disse: Logo vossa mercê quer morrer? Pois se quer, tambem, eu morrerei com elle! A isto volveram os marinheiros dizendo: Se vossas mercês querem morrer nós queremos salvar as vidas. Já que não aproveita pelejar nem ha remedio de defeza. E logo, desobedecendo ás ordens, içaram a bandeira branca. O commandante hollandez veiu a bordo e, entrando na camara onde estava Antonio de Mello, disse-lhe: Que lhe daria em nome da republica toda a fazenda que fosse sua e lhe entregasse os papeis e pedraria que levasse. A isto respondeu Antonio de Mello: Esse partido fazei vós com os que entregaram o galeão e vos chamaram e deixaram entrar, que eu não hei mister de mercês vossas, nem da vossa republica, que tenho rei para m'as fazer, nem eu tenho para vos entregar nada, pois não me dou por vencido senão quando abordardes e me renderes pelas armas! Voltou colerico o hollandez para bordo do seu navio, e entretanto Antonio de Mello deitava ao mar todos os livros, papeis e pedraria. E como lhe censurassem o que fazia, pelo perigo que corria, respondeu: Que perecesse embora a vida e não perecesse um ponto da sua obrigação, nem permittisse{11} Deus que os inimigos soubessem os segredos de El-Rei! O combate continuou. Por fim o galeão foi para o fundo e os portuguezes recolhidos a bordo de uma das naus foram abandonados na ilha quasi deserta de Fernando Noronha. Os que sobreviveram á fome e aos trabalhos chegaram a Lisboa em 1603! Eis como se combatia n'esse tempo e eram d'estes os exemplos que esses valentes marinheiros e altivos soldados nos deixaram!
Os inglezes não menor mal nos faziam, ora no mar, ora em terra, onde comtudo grandes perdas soffreram. Francisco de Mello bate-se valentemente com tres naus inglezas á vista do Fayal. André Furtado de Mendonça vence a expedição que os inglezes e hollandezes enviaram ás Molucas; Salvador Ribeiro de Sousa conquista o reino de Pegu; Alvaro de Moraes desbarata em Colombo tres naus hollandezas, e como estes dezenas de factos eguaes e centenas de heroes! Emfim por toda a parte a guerra, de que os portuguezes, por esforços sobrehumanos, saíam quasi sempre vencedores, mas esses esforços eram por assim dizer isolados, faltava-lhes a unidade do mando, a traça d'um plano a seguir, a boa administração e o senso pratico.
Capella de Santa Catharina (Velha Gôa)