Bom é comtudo deixar consignado que o pobre Estado da India concorreu para pagamento do juro, durante a vigencia do contracto, conhecido pelo tratado do sal e abkari, com a Inglaterra, isto é, de 1878 a 1892 com 40 laques de rupias ou 160 contos por anno e desde 1892 a 1904 com um total de 1:330 contos. D'esta data para cá é consignado no orçamento do Estado da India, para ajuda do pagamento do juro, o saldo das receitas, que tem sido de 30 a 40 contos, sendo a differença paga pela metropole.
Sé Cathedral e Convento de S. Francisco d'Assis (Velha Gôa)
Foi mal pensado o caminho de ferro? Não. Quem olha para a carta da costa da India vê que effectivamente o melhor porto do Malabar é Mormugão, que está inquestionavelmente destinado a representar um grande papel no movimento commercial de toda aquella região. O governo inglez, durante muito tempo, mostrou-se adverso ao desenvolvimento d'este porto, julgando ver n'elle um rival de Karwar, porto que fica um pouco mais ao sul. Mas o relatorio do commandante Dundas Taylor, superintendente dos estudos dos portos da India, veiu destruir pela base essa idéa, provando que Karwar, nem mesmo dispendendo-se alguns milhões de libras, poderia satisfazer as exigencias do commercio maritimo. Mormugão conservou, e conserverá a sua importancia e Karwar, que durante quatro mezes no anno vê o seu porto completamente fechado, que não póde aspirar a ter uma linha propria, porque a passagem dos Gattes pode considerar-se impossivel, se quizer estar sempre em contacto commercial com o resto do mundo{18} terá de adoptar o plano que ultimamente se estudou e que tem por fim ligal-o por uma linha ferrea com a nossa linha em Margão, tornando-se assim nosso subsidiario. Creio bem que d'aqui resultaria sensivel augmento de trafego para a linha de Mormugão e é caso para dizer: tudo que vier é ganho.
Claro está que a realisar-se o intento, o governo portuguez não daria um real nem garantiria qualquer juro ou subvenção. A lição tem sido dura. O governo da India Ingleza, que deve ter n'isso um grande e immediato interesse, que attenda a essa necessidade se quizer.
Em 1897 foi nomeado governador da India o distincto colonial e infatigavel trabalhador o coronel de engenheria Joaquim José Machado, que bem vinculada tem deixado a sua passagem em todos os logares que tem desempenhado. O intelligente official, vendo o enorme sacrificio que o thesouro portuguez estava fazendo, estudou o problema e procurou dar-lhe solução, começando desde logo a entabolar negociações com a Southern Maratha, para vêr se a chamava a uma conjugação de interesses, augmentando o trafego em Mormugão, livrando-se ella propria da dependencia de que em grande parte estava da Great India Peninsular, companhia cujas linhas tambem entroncam com as suas e cuja testa é o porto de Bombaim. O principio das negociações não foi animador, mas, perseverante como sempre, o coronel Machado não largou o assumpto de mão, e apesar de ter saído da India em 1900, continuou o seu trabalho como delegado do governo, até que ao cabo de cinco annos, em 1902, conseguiu accordar uma convenção, que foi assignada entre a West India Portuguese e a Southern Maratha, pela qual a linha portugueza passou, para todos os effeitos de exploração e conservação, a fazer parte das linhas d'aquella companhia, embora em tudo o mais conserve a sua autonomia. Não posso deixar de mencionar que esta convenção, cujos resultados vou já dizer quaes foram, foi acceite e decretada pelo illustre conselheiro sr. Teixeira de Sousa, então ministro da marinha e ultramar, que teve a coragem de ir, n'este despacho, contra a opinião de algumas das estações que tiveram de ser ouvidas sobre o assumpto, prestando assim um excellente serviço. Bem haja.
É elucidativa a leitura das percentagens da exploração. Em 1900 explorava-se a 105%, em 1901, a 115%, isto é, exploração negativa, a média dos doze annos anteriores dava 80%. Feita a convenção, em 1903 baixou a 53%, e o anno passado a 49%. Augmentaram as receitas e successivamente foram augmentando os saldos positivos, sendo estes em 1903, 85 contos; em 1904, 114 contos; em 1905, 109 contos e em 1906, 100 contos. A receita do anno passado attingiu 1 milhão e 100:000 rupias ou sejam 440 contos. D'esta fórma vê-se que o caminho de ferro está rendendo mais de 5:000$000 réis por kilometro, rendimento que julgo não ser excedido, nem mesmo egualado, por{19} nenhum outro. Depois de escripto o que acabo de dizer, tive conhecimento de ter findado para a Southern Maratha a concessão que tinha para a exploração das suas linhas, as quaes passaram a ser propriedade do governo; este, em seguida, entregou á mesma companhia a exploração das linhas que tinha recebido, accrescentando-lhe as de Madrasta. D'esta maneira a nova Companhia Southern Maratha and Madras está hoje á testa de uma rede com mais de 1:500 ou 2:000 kilometros de extensão.
Este novo estado de coisas ha de reflectir-se favoravelmente na linha de Mormugão, não só porque a percentagem de exploração ha de diminuir, mas ainda porque essa companhia deixou de ser uma companhia particular, recebendo a sua administração ordens e instrucções do governo inglez. Soubemos mais que, em quinze dias do mez de janeiro, entraram 18 vapores, com um movimento de 2:375 passageiros, de 32:800 volumes de mercadorias e 4:500 toneladas de minerio. O mez rendeu 157:000 rupias ou 62 contos. Parece que merece a pena olhar para uma linha ferrea que apresenta estes numeros!
Eis em traços muito rapidos o que tem sido o caminho de ferro de Mormugão, o problema mais importante da moderna administração da India.
A India produz magnificas madeiras de construcção, ricas essencias e saborissimas fructas, é um paiz essencialmente agricola, merecendo maior attenção, o arroz e o coqueiro. O arroz é artigo indispensavel para estes povos, entra na alimentação, nos doces, nas massas, na pharmacia, nos juramentos e nas praticas religiosas. Na epoca da colheita faz-se a festa Adáo, que tem logar a 24 de agosto, em que entram guerreiros e bailadeiras. Feita a ceifa e a debulha, o arroz não se levanta da eira, em quanto os differentes individuos da communidade não vêem receber as quotas partes, que lhes pertencem, desde o Estado até á bailadeira. Tiradas estas quotas, o que fica é dividido pelos que trabalharam ou forneceram capitaes.