[XII]
[Defensa de Mazagão]
1562
Portugal, chegado ao fastigio do poder no reinado de D. Manuel, não podia escapar ás leis da humanidade e ás vicissitudes dos grandes imperios. A seiva da arvore social exhauria-se no bracejar immoderado, e nessa lucta temeraria contra nações poderosas e soberanos traiçoeiros, contra linguas, costumes, interesses, religiões e preconceitos diversissimos, o que admira, attenta a nossa pequenez e a extensão[{176}] illimitada das conquistas, é que a estrella das nossas victorias não declinasse mais depressa do zenith para o occaso. Não foi, todavia, sem gloria essa mesma decadencia, porque os poucos portuguezes, que dispersos pelo mundo defendiam as colonias, animosos na desgraça como na fortuna, só as cederam depois de porfiada lucta, e diante de adversarios contra os quaes não vale audacia nem esforço; acabando de se gastar mais por fomes de assedios que por armas de peleja, e buscando honroso tumulo nos rotos pannos de muros das desmanteladas fortalezas.
Mas não é da prolongada agonia do imperio portuguez na Asia e na Africa, que por ora temos de tratar; chamam-nos factos e successos realisados n'uma épocha em que ainda a nação se julgava cheia de vitalidade e vigor,[{177}] posto que os primeiros symptomas de decrepidez já fatalmente se tivessem apresentado na perda de Cabo Aguer, e sobretudo no desamparo de Safim, Azamor, Arzilla e Alcacer em tempo de D. João III.
Sabendo o scherif Muley-Abdalá, rei de Marrocos, de Fez, de Terudante, de Suz, e de muitos reinos e provincias d'Africa, que a fortaleza de Mazagão estava mal provida de artilheria e munições de guerra, e guardada apenas por poucos arcabuseiros, determinou conquistal-a. Era nesse tempo Mazagão um ponto verdadeiramente importante. Situada nas praias do Atlantico, o mar banhava-lhe os muros, deixando-lhe nos fossos sufficiente altura de agua, e tornando-lhe facil receber da metropole soldados, viveres e toda a especie de soccorros. Podia, pois, considerar-se excellente base[{178}] de operações, e o padrasto mais de receiar para a visinha cidade de Marrocos.
Com estas circumstancias as tentativas dos sarracenos para se apoderarem da fortaleza, tentativas frequentemente repetidas e sempre mallogradas, eram faceis de explicar. Desta feita, porém, parecia certa a victoria, e por isso o scherif encarregou a seu filho Muley-Hamet, moço brioso e valente, o mando de numerosas tropas, que um historiador italiano desse tempo avalia em duzentos mil homens, mas que, conforme calculam escriptores tambem coevos, a poucos mais poderiam subir de cento e cincoenta mil. Fosse como fosse, era espantoso o numero em comparação com o dos portuguezes, e havia sobretudo entre essa gente, em parte collecticia e desordenada, muitos cavalleiros e infantes[{179}] habituados á guerra e á disciplina, e habeis capitães encanecidos nos cargos da milicia e no tumulto dos combates.
Acampado o exercito a curta distancia de Mazagão, começaram os trabalhos do cerco, e com tal actividade e enthusiasmo, que em poucos dias se elevou defronte da fortaleza uma grossa trincheira, onde os mouros assentaram as baterias com grave damno dos cercados. Estes por seu lado não estavam ociosos, e Rui de Sousa de Carvalho, capitão mór na ausencia de seu irmão Alvaro de Carvalho, accudia com diligencia a remediar o que faltava na fortificação, mandando ao mesmo tempo jogar a artilheria contra os trabalhadores do campo, e determinando por vezes sortidas e escaramuças, em que o impeto dos portuguezes, repentino e devastador, conseguia[{180}] sempre assombrar a turba dos inimigos.
Soou depressa no reino a noticia do cerco, e desde logo muitos cavalleiros e soldados quizeram participar dos riscos da empreza. Posto que os habitos de luxo e as riquezas adquiridas na Asia tivessem de certo modo amortecido as virtudes politicas dos nossos maiores, não estava o caracter portuguez ainda gasto, como moeda velha, cuja marca o roçar de muitos annos houvesse já extincto; e o ardor de patriotismo, que então se revelou, recorda os actos mais heroicos da nossa edade média. Moços illustres, a quem os brios sobrepujavam os annos, embarcavam-se furtivamente; fidalgos velhos, exaltados por bizarria sublime, emprehendiam a jornada de que aliás estavam isentos pela edade e longos serviços; muitos[{181}] imploravam como mercê e recompensa affrontarem os combates e a morte; outros, reputando em pouco o sacrificio da vida, levavam ainda á sua custa navios cheios de soldadesca e munições. Havia como que uma embriaguez de enthusiasmo, o esforço convertêra-se em delirio, e o espirito religioso associado á cubiça de renome abrazava com tal intensidade os animos, que foi preciso que a rainha D. Catherina, regente na menoridade de seu neto D. Sebastião, prohibisse com penas severas novos embarques, e desse terminantes ordens para que não partissem mais navios.
Entretanto os mouros preparavam-se para o assalto, disparando a artilheria contra a fortalesa, e procurando ao mesmo tempo cegar o fosso com faxina; e supposto que os tiros, os arremeços e as materias escandecentes,[{182}] que sem tregoa choviam das ameias, ferissem e inutilisassem muitos dos que se empregavam n'aquelle trabalho, venceu, afinal, a constancia dos sarracenos, que conseguiram não só entulhar a cava, senão levantar proximo á muralha um grande terrapleno, que emparelhou com a maior altura do baluarte, a ponto que assaltantes e defensores pelejavam corpo a corpo, braço contra braço, á espada e lança varada, como em desafio ou batalha campal. Nem assim, porém, poderam os mouros entrar na fortaleza. Alvaro de Carvalho, que fôra dos primeiros que chegára do reino, combatia á frente dos seus soldados, onde mais acceso ia o fervor da batalha, sem todavia esquecer o officio de capitão; e o nobre exemplo e a emulação de esforço tornavam invenciveis os portuguezes.