O reinado de D. Sebastião é notavel por um facto unico, a derrota de Alcacer. O projecto de submetter as terras da Berberia, berço das nossas[{191}] conquistas de alem-mar, não era tão louco como a desgraça o apresentou, e devia encontrar favor na vontade popular, porque assentava nas tradições e rancores de uma guerra de seculos, e na conveniencia incontestavel de se alargar o territorio portuguez pelas fronteiras costas africanas. A nação, comtudo, sentia-se cançada e pobre para a ousada tentativa, e ainda que assim não fosse, invalidavam-lhe as probabilidades de victoria, por um lado a cega vaidade do monarcha, por outro a tenebrosa politica de D. Philippe II, cuja desregrada cubiça contava por alliadas uma astucia e actividade inexcediveis.

Em tal estado de cousas, esmorecidas as grandes virtudes guerreiras da edade média, julgou-se necessario que o monarcha, antes de se aventurar longe da patria á sorte das batalhas,[{192}] aguardasse que a febre da discordia consumisse politica e moralmente as forças dos sarracenos; mas até nisso foram mal logrados todos os bons planos de fortuna, porque o imperio de Marrocos, apesar das luctas intestinas, e das perturbações e males causados pelas oppostas parcialidades, não decahira a tal ponto, que não podesse resistir com vantagem a uma invasão estrangeira. Muley-Moluk, homem de extraordinarios talentos militares e politicos, e de um denodo a que a escola do infortunio associára a prudencia, tinha derrubado do throno seu sobrinho Muley-Hamet, que, frustradas todas as tentativas para recuperar o poder, implorára por fim o soccorro dos portuguezes. Essa alliança, porém, convertêra uma contenda domestica n'uma lucta de religião e de liberdade, guerra sancta que dava aos soldados africanos[{193}] a força que resulta sempre do fanatismo religioso e do amor da independencia, natural em todos os povos; e Muley-Moluk fizera-se depressa estimado da maior parte dos mussulmanos, não tanto pela firmeza com que restabelecêra a ordem e administração do estado, como pela repugnancia que, conforme é facil de suppôr, excitára nas multidões a liga do rei desthronisado e dos seus parciaes com um povo inconciliavelmente inimigo por antagonismo de crenças e de raças.

Eram 4 de agosto de 1578 quando o moço rei portuguez, despresando o voto cauteloso dos principaes capitães, determinou romper a peleja contra o poderoso exercito dos mouros. Ao principio conseguiram os nossos manifesta superioridade. A cavallaria que acompanhava o rei, intrépida posto que pouco numerosa, e o terço de aventureiros[{194}] romperam e desbarataram, logo do primeiro impeto, a vanguarda dos adversarios, que, incapazes de sustentar o violento embate e de resistir frente a frente, se dispersaram, fugindo, pela extensão da planicie; Muley-Moluk, buscando com heroico esforço reanimar os seus, cahira moribundo nos braços dos alcaides; e os clamores de alegria com que os christãos se arremessavam á refrega, como se o dar e receber a morte fosse o prazer de um torneio, diffundiam o temor no centro dos infieis, que mal obstariam á furia da torrente, se o grosso das nossas tropas, aproveitando o ensejo, se empenhasse com egual denodo n'aquelle repto tremendo. Mas em vez d'isso uma voz de desalento, produzindo nos cavalleiros e peões um daquelles terrores panicos, de que não faltam exemplos nem até entre os soldados[{195}] que uma severa disciplina prepára para a victoria, mudou n'um instante o aspecto da batalha. Os arabes, conhecendo a desordem no arrayal contrario, e cobrando novos brios com o auxilio das forças de reserva, voltaram a disputar o terreno, que quasi haviam cedido sem combate, e em breve o sangue europeu regou abundantemente os aridos campos de Alcacer.

Então, quando as fileiras dos velhos soldados de Castella, da Italia e da Alemanha já debalde tentavam ordenar-se, e era grande a confusão e o susto nos terços dos portuguezes, precipitaram-se contra o nosso exercito as ondas dos cavalleiros mahometanos, e apoz elles a turba dos alarves, que do alto dos visinhos montes observavam o resultado da peleja, para baixarem, como aves carniceiras, sobre os restos dos vencidos. Desde esse momento[{196}] os signaes de derrota tornaram-se dolorosamente certos para os nossos, que, todavia, ainda combateram só com o fito na desesperada empreza de soccorrerem o soberano, facilitado-lhe os meios de retirar-se a salvo.

D. Sebastião, porém, nascera com animo altivo e coração generoso. Os mimos com que fôra tratado desde o berço; a educação acanhada que recebêra na adolescencia; as maximas de castidade que o privaram dos affectos puros e sanctos de familia, affectos que suavisam os caracteres mais duros; as suggestões dos validos, que, despertando-lhe pensamentos ambiciosos, lhe devoravam o socego, a reflexão e a mocidade; e finalmente, como é certo, as intrigas e mesquinhos enredos da côrte haviam excitado as más paixões, que fermentaram terrivelmente no seu coração de mancebo,[{197}] mas não tinham de todo prevertido os nobres sentimentos da sua alma. Vendo a batalha perdida, não quiz sobreviver aos seus, e, arrojando-se como leão onde quer que o combate era mais acceso, recusou sempre com altivez o entregar-se ou fugir. Afinal cahiu ou desappareceu no meio da multidão, e com a sua falta expirou o vigor nos peitos mais esforçados. O resto foi uma larga carnificina com que os mouros, senhores do campo, saudaram o triumpho, humilhando a intrepidez e constancia dos cavalleiros e homens de armas portuguezes.

Chegada a Lisboa a noticia do tragico desfecho da jornada de Africa, e duvidosos os animos sobre o destino do monarcha, foi entregue o governo do reino ao cardeal D. Henrique, velho insensato e timido, tão sequioso como incapaz do poder; e Portugal[{198}] despenhou-se então sem amparo na mais afflictiva phase da sua longa existencia. As virtudes militares e politicas de nossos maiores, e sobretudo as antigas leis do paiz, em completa harmonia com as suas necessidades e indole, haviam-nos até esse tempo conservado livres do jugo de Castella, cuja tenaz ambição nunca deixára de olhar para esta pequena faixa de terra como para uma provincia rebellada; mas o estabelecimento do regimen absoluto sobre as ruinas da monarchia liberal da edade média; o espirito de intolerancia, que, perseguindo e expulsando os judeus, privou todos os dominios portuguezes do trabalho, do conselho e dos capitaes de uma raça intelligente e activa; a sede do ouro, que fez desestimar a agricultura e industria do solo natal pelo engôdo das faceis riquezas[{199}] que se adquiriam na India e no Brasil; os desacertos economicos e administrativos do governo da metropole, e dos seus delegados na Asia, na Africa e na America; e por fim a ultima catastrophe nos campos de Alcacer-quibir tinham produzido a irremediavel e extrema decadencia, que nos obrigou a curvar o collo ao despotismo estranho.

Durante o curto reinado do cardeal D. Henrique, os animos estiveram sempre alvoroçados com os receios, cada vez maiores, ácerca da successão. O prior do Crato, o duque de Bragança e D. Philippe II eram os pretensores que contavam maior numero de probabilidades, mas nenhum dos dous portuguezes possuia as forças necessarias para tomar sobre os hombros a empreza de D. João I, em quanto que o rei de Hespanha, dotado de caracter[{200}] energico e de uma perfidia sem limites, tinha todo o poderio de vastissimos dominios para combater e debellar as resistencias que encontrasse. Essas não foram longas nem obstinadas.

O velho cardeal rei, pouco favoravel no principio a D. Philippe II, em breve mudou de resolução, compellido não menos por apprehensões pusillanimes, do que pela cubiça e pelo odio, que foram as paixões permanentes dos largos annos da sua vida. A principal aristocracia, antepondo os calculos interesseiros ao nome illustre de seus avós e á propria dignidade, não duvidou pactuar com os procuradores de Castella, que, á força de ouro e promessas, arrastaram a nacionalidade portugueza ao mercado das traições infames, dos enredos miseraveis, das torpes vinganças, das abjecções ignavas.[{201}] O povo, irreflectido e variavel como o mar, que ora freme colerico e se despedaça em vagalhões gigantes, ora se espreguiça brincando com os flocos de espuma que lhe saltam no dorso; o povo, dilacerado pela fome, pela peste e pelos desastres da guerra, não podia senão murmurar, porque os seus soldados, os seus capitães, os seus jurisconsultos, os seus magistrados, os seus bispos, os seus principes, tudo quanto no reino havia de nobre e rico por illustração e por linhagem, ou tinha já desertado para o partido estrangeiro, ou se conservava indeciso não obstante os riscos da patria. Finalmente a persuasão commum de que a paz, individual e domestica, só poderia conseguir-se com o sacrificio completo da independencia politica tirava ás almas mais robustas aquella tenacidade fria, aquella firmeza de[{202}] vontade, que não mede os obstaculos e para a qual não ha impossiveis.

Debalde nas côrtes, que se reuniram primeiro em Lisboa e depois em Almeirim, côrtes que já eram apenas pallido reflexo de representação nacional, alguns homens intrepidos e probos protestaram eloquentemente contra a imbecilidade e corrupção dos poderes publicos; debalde a voz auctorisada de Phebo Moniz, alto exemplo de virtudes publicas no meio da prostituição geral, instou com os procuradores dos povos e com o moribundo monarcha para que não se entregasse o reino ao dominio estrangeiro, e se respondesse com energia ás ameaças de D. Philippe II; debalde, emfim, a plebe, que é a ultima onde se desvanece o aferro á terra da patria, dava visiveis signaes de supportar de máo grado a ruina que lhe[{203}] preparavam; a força moral da nação tinha desapparecido, e a força material, que aliás é sempre illusoria quando falta a unidade do pensamento e o ardor do enthusiasmo, havia-se dissipado, a pouco e pouco, na extensão desmedida das conquistas, até acabar de todo nas planicies d'Africa.

Assim, apenas fallecido D. Henrique (31 de janeiro de 1580), os governadores do reino, nomeados anteriormente, dissolveram as côrtes, receiando que podessem ser o centro onde se alimentasse energica resistencia aos interesses de Castella; e a acceitação do filho de Carlos V para rei de Portugal foi definitivamente resolvida. Pouco depois um exercito de vinte mil homens, capitaneados pelo duque de Alva, o sinistro pacificador dos Paizes Baixos, entrava no Alemtejo para lavrar com a espada o epitaphio[{204}] das liberdades portuguezas; e o monarcha odioso, denominado o demonio do Meio-Dia n'uma epocha em que os progressos da civilisação ainda não tinham diffundido a brandura do tracto entre os homens, conseguiu tomar posse do seu novo reino, tendo só que vencer a fraca opposição de uma parte do povo, e desses raros cavalleiros que, no meio de gente gasta e prevertida, conservaram sempre os nobres sentimentos de integridade e patriotismo.[{205}]