Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. Não dava o globo attribuido á Behaim posição das ilhas do Cypango ahi por perto, segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de passaros que se encontravam no espaço, a direcção de seus vôos para o Oeste, não o confirmavam? Por elles se não regulavam os Portuguezes, com quem aprendera em suas viagens? Não mostravam-se ainda frescas as hervas e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, só proprios de rochedos, não se colhiam aos anzóes? No estendido horizonte, ao som monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, não adivinhavam seus olhos alguma cousa extraordinaria?
Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha, que se movia. Navio não podia ser. Não o havia naquellas[{68}] paragens. Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinião. A luz ora desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a marcha fosse parallela e não em direitura á luz, para melhor se reconhecer a verdade.
Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de peça de bordo da Pinta estrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram, subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria devéras terra? Não equivaleria ainda a uma illusão?
A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios. Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o navegador intrepido e arrojado!
Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou então a equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devéras, deante das Indias? Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia da Europa, em mares[{69}] desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas afim de ir a pouco e pouco melhor observando.
Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America! Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e não um novo hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para outro polo? Não tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos, percebido terras novas defronte da Africa e Europa?
Não fôra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperança, dobrado em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e duração da viagem? Para Colombo não houve duvida mais,[{70}] estavam alli as Indias, e ás terras que descobria foi dando o nome de Indias Occidentaes, como costas oppostas ao Indostão que os Portuguezes procuravam.
A terra que via Colombo defronte de si pareceu-lhe uma ilha, não montanhosa, mas coberta de espessos e altos arvoredos. O aspecto encantava, e á proporção que os navios se approximavam, foram apparecendo homens, sahindo dos bosques, e que se collocavam curiosos nas praias a olhar para as caravellas. A atmosphera diaphana, perfumada, mais ainda o enchia de contentamento e enthusiasmo.
Lançam-se ao mar as ancoras. Tres chalupas enchem-se de homens armados. Colombo embarca-se em uma, coberto com um manto encarnado, de espada em punho e sustentando no outro braço o estandarte real de Castella e Aragão. Os dous irmãos Pinzons descem para as outras duas. Rema-se para terra. Os habitantes curiosos fogem para os bosques. Colombo salta: ajoelha-se, rende Graças a Deus, beija o chão e derrama lagrimas[{71}] de alegria! Resoam os ares com canticos a Deus, em córos repetidos. Colombo estende então a espada, levanta o estandarte, e, rodeado de seus companheiros, declara a terra de posse e propriedade da rainha de Castella e do rei de Aragão, e dá-lhe o nome de S. Salvador. Manda pelo escrivão lavrar termo com todas as formalidades e jura aos Santos Evangelhos que, na qualidade de almirante e governador em que se considera desde aquelle instante, obedecerá escrupulosamente ás régias magestades, que representa como subdito fiel e dedicado.
Todos saudam, applaudem o chefe, proclamam sua autoridade, e juram-lhe egualmente obediencia.