Avistaram felizmente a ilha de Santa Maria, no archipelago dos Açores, depois de andarem muitos dias á matroca as duas caravellas, entregues ás correntes do oceano, impellidas para onde os ventos as empurravam, sem poderem usar das velas, porque seria um perigo, nem tomar alturas por falta de sol e de estrellas; coberto sempre o céo de negras nuvens!

Com difficuldades obteve Colombo que as autoridades portuguezas da ilha lhe consentissem concertos nas caravellas e lhe prestassem alguns soccorros de viveres. Ao deixar Santa Maria, nova tempestade irrompeu, e tão impetuosa, que[{85}] separaram-se de uma vez a Pinta e a Nina. Colombo tratou por seu lado de procurar abrigo na primeira costa, e avistando as montanhas de Cintra, penetrou no Tejo com o seu navio, emquanto que a Nina commandada por Martim Pinzon, atirada mais para o Norte, seguia rumo differente.

Que espanto o da população de Lisboa ao avistar a caravella de Colombo apparecer á barra, subir o Tejo, fundear defronte de Belém, e, visitada, obter informações de que Colombo descobrira as Indias pelo Occidente!

D. João II mandou-o ir logo á sua presença, interrogou-o, ouviu-o attentamente e louvou-lhe a façanha em termos lisonjeiros e agradaveis, não manifestando a menor decepção ou despeito, acolhendo-o antes com cavalheirismo. Despediu-o com presentes, afim de que livremente seguisse para a Hespanha, depois de receber os soccorros de que carecia. De Lisboa tomou Colombo rumo maritimo para o Sul, e dobrado o Cabo de S. Vicente entrou na barra de Salter, na manhã do dia 15 de março[{86}] de 1493. Subido o rio Tinto, fundeava ao meio-dia em Palos, depois de quasi oito mezes de ausencia, que tanto durara a sua excursão maritima! Caso inesperado! Appareceu e chegou a Palos, na tarde do mesmo dia, a caravella Nina, cuja vista e noticia perdera Colombo desde a altura dos Açores. Depois de errar longos dias pelo oceano, alcançara egualmente Pinzon dar fundo no porto, de onde partira.

Imaginai, minhas senhoras e senhores, as impressões, as sensações, as alegrias, os exaltamentos, os transportes, a admiração dos habitantes de Palos, ao reverem seus amigos, ao saudarem a empreza portentosa que se commettera, e que elles nunca haviam pensado que se podesse realizar!

Tinham-se descoberto as Indias, e era Hespanha que se gloriava do feito, e antes que Portugal as deparasse! Por quasi um seculo inteiro Portugal as procurava em vão, emquanto que logo a seu primeiro ensaio de navegação maritima, ao primeiro e fraquissimo commettimento que praticara[{87}] Hespanha, com tres miseraveis caravellas, abrira para as Indias o caminho da Europa!

Não se devia tudo ao genio de Colombo? Á sua audacia, á sua pertinacia, á sua paciencia, á sua sciencia, á seus trabalhos? Não arriscara seu nome, sua vida, em serviço e gloria de Hespanha?

Pensavam-no perdido, morto talvez, porque nem uma confiança depositavam nem sabios nem povos em sua temeraria e louca empreza, e eil-o com seus navios, radioso, triumphante, coberto de glorias!

Correram todos a recebel-o, a vel-o, a ouvil-o, a perguntar noticias dos amigos, das terras descobertas, dos novos mundos das Indias! Com difficuldade pôde elle desembarcar, dirigir-se á egreja a render graças á Deus! As ruas cobriram-se de folhas de arvoredos, as casas ornaram-se de cortinas, aos ares subiram os fogos, estrondaram as peças de artilharia, repicaram festivamente os sinos dos templos, repercutiram estrondosamente os gritos e saudações geraes, espontaneas. Foi para[{88}] Palos um dia de incomparavel jubilo, de alegria louca, de transportes patrioticos! Reis não são acclamados com mais espontaneidade e enthusiasmos! Como que um delirio se apoderava de todos os animos!

Sabendo Colombo que os reis catholicos estavam em Barcelona, para elles escreveu logo e fez partir emissarios communicando-lhes sua chegada.