Quer apresentando e entregando notavel quantidade de ouro para os cofres publicos; quer com discursos e relatorios afiançadores de maiores riquezas, e em que reluzia sempre a esperança de tornar catholicas tantas almas perdidas, que imploravam o baptismo para se salvarem, com o que correspondia ás delicadas cordas da consciencia da Rainha; conseguiu Colombo desfazer muitos preconceitos e calumnias propaladas á seu respeito. Declarou-lhe por fim Isabel que continuaria a confiar nelle e lhe prestaria novos auxilios, com que executasse terceira viagem ás Indias Occidentaes, explorasse terras até encontrar o Japão e a China, e cuidasse de extrahir das minas descobertas no Offir a maior somma possivel de riquezas.
Que difficuldades se lhe antepuzeram, no entanto, aos desejos de aprestar navios com gente[{120}] e carregamentos necessarios! Ora allegava-se que o thesouro regio estava esgotado com as guerras que o ambicioso Fernando travara contra a França; ora excessivas despezas exigidas pelos casamentos da princeza D. Joanna com o archiduque austriaco Felippe, que governava em Flandres, e do principe D. João com uma infante egualmente da casa d'Austria.
Oppunha-se por seu lado tambem Fernando de Aragão a todo o gasto para se descobrirem ilhas e terras selvagens e incultas, preferindo nas guerras, em que quasi sempre laborou na Europa, empregar os recursos de Hespanha.
A Rainha, porém, decidiu-se á coadjuval-o efficazmente, logo que soube que em julho de 1497 El-rei D. Manoel, que herdara a corôa de Portugal, tratava de executar o pensamento e recommendações de D. João II, fallecido em 1495, de perseverar nos aprestos de uma grande expedição para as Indias do Indostão, e conseguira emfim fazel-a partir de Lisboa, ás ordens do almirante Vasco da Gama, que como seu auxiliar levara[{121}] em sua companhia o famoso Bartholomeu Dias, que descobrira e dobrara a ponta final da Africa, o tormentoso Cabo da Boa Esperança. Cortou então por todas as difficuldades, e ordenou que á todo o preço se prestassem auxilios á Colombo.
Não era agora desairoso á Castella deixar que a nação portugueza proseguisse só nos descobrimentos, e se lhe avantajasse em gloria e riquezas, que das Indias pintadas e imaginadas com as mais deslumbrantes opulencias deviam provir?
Não tardaram em promptificar-se seis grandes navios convenientemente armados e tripolados no porto andaluz de S. Lucar, vizinho do de Cadix. Foram carregados de armamentos e viveres em abundancia, de obreiros e mineiros para a extracção do ouro, e de missionarios para a catechisação dos gentios.
Confiados de novo á Colombo, transmittiu-lhe a Rainha instrucções para que não parasse na empreza de abrir commercio com o Japão e a China.[{122}]
Partiu assim Colombo para sua terceira viagem de descobrimento das Indias em julho de 1498, e agora do porto de S. Lucar.
Já algumas nações da Europa agitavam-se, no entanto, com o pensamento de relacionar-se tambem com as Indias. Por que Hespanha e Portugal seriam as unicas a ganhar louros gloriosos na historia do mundo, a dilatar os conhecimentos e sciencias cosmographicas, a opulentar-se e enriquecer-se em commercio e navegação? Faltavam á ellas elementos e meios para emularem e competirem com os dous povos da peninsula iberica? Não dispunham egualmente de homens habituados aos azares maritimos, de temerarios chefes e soldados intrepidos para tomarem parte no movimento assombroso e conquistador, cujas noticias causavam o espanto e a admiração geral?
Que poderiam, porém, Francezes intentar quando seu rei, Carlos VIII, vivia occupado em reunir á corôa franceza a Bretanha, no desejo de completar a obra de seu finado pai, Luiz XI,[{123}] que anciara unificar a França em um só reino? Quando, além disso, iniciara guerras com Fernando de Aragão por ciumes de dominar a Italia, e apoderar-se de Napoles e Sicilia? Atrevidos eram ainda como sempre o haviam sido os normandos, marinheiros audazes, e pois, em despeito das ordens régias, e apoiados só em suas energias e temeridades particulares, começavam espontaneamente á devassar as aguas do Atlantico, seguindo primeiramente os passos dos portuguezes pelas Costas da Barbaria e da Guiné.