Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha; prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.[{154}]
Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava, inspirava e electrisava?
Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a 70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de Martinica, ou, como[{155}] pensam alguns chronistas, na proxima de Santa Lucia.
Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.
Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem de receber viveres.—Acredital-o-heis?—Prohibiu-lhe Ovando que se approximasse de S. Domingos!—Era assim expellido brutalmente das terras de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e almirante!—Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse, pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de seus[{156}] pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica foi-lhe denegada a licença!
Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes secundarios, que agora dominavam!
Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a tormenta que approximava.
Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S. Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla exhalou a vida[{157}] no seio das vagas em que foram as embarcações submergidas.
Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a localidade mais apropriada para a fundação[{158}] de uma colonia européa, e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.
Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia, posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais perigosos parceis.[{159}]