Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795, cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam, transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde então repousam.
Minhas senhoras e senhores.
Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos esforços.
Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e de Colombo, e em[{168}] todas as linguas européas. Bibliothecas importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos, factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se, desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.
Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se levantaram contra sua reputação depois de sua morte.
Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia e insoffrida temeridade.
Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America, asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.[{169}]
Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?
Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto, porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se noticias[{170}] escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?—Não, nada delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando ellas fossem reaes, não eram conhecidas.
O que é verdade e verdade historica, é que de nenhuns elementos por elles colligidos, si é que existiram, se aproveitou Colombo para ousar ir em busca das Indias. Inspirava-o só a certeza de que havia de encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na ilha da Madeira derrotas e itinerarios á que havia procedido, e de que resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram, porém, o asserto, com documentos? Não os teriam portuguezes publicado quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de descobridor? Quantas[{171}] vezes se apropria o genio inventor de trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve a invenção e não aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do feito de Colombo é que resultou para a Europa o conhecimento do novo mundo. Antes delle tudo se ignorava.