—Em ordem pois, e andar para adiante!—continuou o fogoso orador.—D'aqui a trinta leguas começão os nossos trabalhos. Até então viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrás do páo, ataques de jaguára de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco. Mas não tenhais medo. Eu conheço todos estes perigos. Servi com um dos homens que por ordem de Martim Affonso acompanhárão ao sertão em auxilio de Aleixo Garcia ao capitão José Sedenho, e de que poucos escapárão da refrega[[3]]. Marchemos, amigos!{54}
Reconhecêrão os dous moços, que presenciavão esta scena, que o grupo avistado formava uma bandeira de aventureiros, como começavão a organisar então os Portuguezes de São Paulo, incitados pela ambição de descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior para os reduzirem ao captiveiro.
Posto que nas sós tradições, que se referião a Aleixo Garcia e aos Hespanhóes do Perú, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata no interior do paiz, e nem uma havião ainda descoberto os Portuguezes, bastava a idéa para lhes fallar á cobiça, e leva-los a tentar a fortuna nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de preciosidades que a crença geral dizia escondidas no seio das terras, e colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a corôa portugueza a{55} estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que conquistárão, e com que alargárão as suas posses, ganhando-as sobre os vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoações, que com o tempo prosperárão e augmentárão, e abrindo communicações e caminhos para a beira do mar, aonde havião os Portuguezes começado a estabelecer-se. Findárão seus dias pelos desertos muitos dos aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecêrão sem deixarem noticias. Não os poupavão as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes terriveis e pesadas de que usavão, no meio dos seus ferozes festejos, para quebrarem as cabeças dos prisioneiros, cujos corpos devoravão em banquetes horriveis. Resultárão porém no fim das correrias dos Paulistas vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em terras, população e riquezas.
Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo,{56} e disse-lhe:—Não pensas que o céo nos mostra o que temos de fazer? Porque não acompanhamos estes homens nas suas explorações?
Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento repentino.—Vá feito,—respondeu,—e já!
Não gastárão tempo em colloquios. Tomou o noviço a sua roupeta que seccára, e o seu chapéo preto de abas largas. Vestio-se Antonio da Costa com uma jaqueta grossa, deitou-lhe por cima um capote, collocou na cabeça um barrete de palha tosca, e pegou da espingarda e espada que possuia. Promptos para a longa peregrinação, sahírão ambos da choupana, cuja porta ficou trancada, e apressárão os seus passos afim de apanharem a bandeira, que se tinha afastado e adiantado bastante.
Ao chegar á margem do rio Tieté, lográrão os moços encontrar os aventureiros, a cuja{57} empreza pretendião associar-se. Requereu Antonio da Costa fallar ao chefe. Apresentado a Matheus Chagas, declarou-lhe a sua intenção e a do seu companheiro.
—Hum! hum!—vociferárão alguns.—Dous rapazolas, que parecem uns fracalhões, para que nos servem? Queremos gente forte, robusta, capaz de trabalhos e de fadigas, e não franguinhos, que irão só incommodar-nos!
—Silencio!—bradou Matheus Chagas.—Sou eu quem governa, e aceito a companhia. Teremos assim padre e sacristão!
Gargalhadas estrepitosas soárão d'entre os aventureiros. Apropriava-se de feito o dito do chefe ás vestes de Manuel de Moraes e ao juvenil semblante de Antonio da Costa. Subio ao rosto do noviço um rubor subito. Virando-se para o seu amigo, pareceu annunciar-lhe que melhor fôra abandonar o intento. Disse-lhe porém baixo Antonio da Costa que não{58} fizesse caso das risotas do grupo, e lançado estava o dado do destino.