Não trepidou Moraes em obedecer ao chefe. A rogos de Antonio da Costa, deu-lhe Matheus Chagas o seu amigo por companheiro.

Tomárão os dous moços a direcção que lhes apontárão os tres Carijós que tinhão já reconhecido os sitios. Seguírão-lhes os passos os oito aventureiros, occultando-se para não serem vistos, e nem pressentidos pelos inimigos.

Chegárão Manuel de Moraes e Antonio da Costa á raiz do outeiro, e subírão-no até o alto pelas escabrosidades do terreno. Quando alli apparecêrão, echoou na baixada opposta uma gritaria descommunal, que lhes annunciou{66} a existencia proxima dos gentios que devião procurar. Levantou os braços o noviço, apertando e mostrando nas mãos a cruz e o rosario, e seguido pelo seu amigo, foi descendo em direitura ao sitio de onde partião as vozes da tribu selvagem, sem que entretanto descobrissem pessoa alguma adiante e nem atrás de si.

Deixado o outeiro, encaminhárão-se afoutamente pela veiga, que se abria, e acabava no rio. Terião marchado duzentas braças mais, quando a gritos repetidos, se sentírão rodeados de um enxame de gentios nús, tendo apenas na cabeça, e nas partes inferiores do corpo, pennas multicôres de passaros vermelhos e fulgurantes, e nas mãos arcos e frexas de tamanhos e feitios diversos.

Sentírão ambos os moços parar-lhes o sangue nas veias, e arripiarem-se-lhes as carnes. Levantada a cabeça, e erguidas as mãos, mostrou Manuel de Moraes aos gentios a cruz{67} divina, e começou um discurso em portuguez, que derão os indigenas mostras de não entender, posto lhe prestassem attenção com ares de curiosidade. Curvado com humildade, e as mãos entrelaçadas no peito, como penitente, se conservava Antonio da Costa firme e resignado, representando ambos as personagens que lhe havião sido confiadas.

Cada um dos gentios procurava todavia examinar os dous individuos. Occupárão-se uns com o improvisado Jesuita, pegavão-lhe na roupeta, miravão-lhe o chapéo, olhavão-lhe para os grossos sapatos, espantavão-se diante dos seus gestos e das suas palavras incomprehensiveis. Seguravão outros no seu acolyto, e puxavão-lhe as barbas sem o menor respeito.

—Homem de paz,—exclamava Manuel pomposamente,—procuro dar-vos a paz, e ensinar-vos a religião do unico Deos, creador do mundo. Deixai, selvagens, a vida errante{68} e nomade, que vos arrasta para a perdição! Morreu o verdadeiro filho de Deos em Golgota...

Trocárão no entanto entre si os gentios palavras rapidas em lingua guarany, das quaes posto algumas escapassem a Manuel, percebeu-lhes comtudo o sentido, por haver estudado o idioma na casa da companhia. Manifestavão os gentios suspeitas de que fosse um laço a scena a que assistião, e parecião desconfiar da veracidade do missionario.

Para desviar-lhes as suspeitas, e affeiçoar-lhes os animos, disse-lhes Manuel em guarany:

—Tenho companheiros, sim, mas ficárão longe e não vos farão mal. Somos mensageiros de paz, e procuramos a vossa amizade. Vim por isso fallar-vos.